Nova regra da CNH levanta dúvidas sobre cobertura de seguro em carros usados em aulas práticas

Nova regra da CNH levanta dúvidas sobre cobertura de seguro em carros usados em aulas práticas

Por Redação 

A autorização para que candidatos à Carteira Nacional de Habilitação (CNH) utilizem carros particulares em aulas e provas práticas começou a gerar questionamentos no mercado de seguros sobre a cobertura em caso de acidentes envolvendo motoristas ainda não habilitados. A mudança foi implementada após resolução do Conselho Nacional de Trânsito (Contran), que flexibilizou o processo de formação de condutores com o objetivo de reduzir custos e ampliar o acesso à habilitação no país.

Pela nova regulamentação, veículos particulares podem ser usados no processo de aprendizagem desde que atendam às exigências definidas pelos Departamentos Estaduais de Trânsito (Detrans) e contem com acompanhamento de instrutores credenciados. A medida integra o pacote de mudanças aprovado pelo Contran no fim de 2025 e defendido pelo Ministério dos Transportes como uma alternativa para reduzir despesas dos candidatos à CNH. 

O novo cenário, porém, abriu um debate entre seguradoras e especialistas em direito securitário. Representantes do setor afirmam que muitas apólices atuais não preveem cobertura para veículos conduzidos por pessoas sem habilitação definitiva, ainda que a condução esteja autorizada pelas novas regras de trânsito.

Em entrevista divulgada por entidades ligadas ao mercado segurador, a vice-presidente da comissão de automóveis da Federação Nacional de Seguros Gerais (FenSeg), Keila Farias, afirmou que “cada seguradora possui regras próprias” para análise de cobertura e avaliação de risco. Segundo ela, o uso do veículo para aprendizagem pode ser interpretado de forma diferente do uso particular informado na contratação do seguro.

O entendimento é semelhante ao de executivos de seguradoras que acompanham as discussões sobre a regulamentação. Fábio Morita, diretor-executivo da Allianz Seguros, declarou que “a apólice tradicional não foi desenhada” para situações envolvendo condutores ainda não habilitados. O executivo defendeu que o setor deve discutir adaptações específicas para atender ao novo modelo de formação de motoristas.

Nova CNH amplia debate sobre responsabilidade em acidentes

Além da discussão sobre seguros, a resolução também passou a levantar dúvidas jurídicas sobre responsabilidade civil em acidentes durante aulas práticas realizadas com carros particulares. O Código de Trânsito Brasileiro prevê penalidades para condução sem habilitação, mas a nova norma criou exceções para candidatos regularmente inscritos no processo de formação e acompanhados por instrutores autorizados.

Especialistas em direito do seguro afirmam, no entanto, que a autorização administrativa não altera automaticamente os contratos firmados entre seguradoras e clientes. Ernesto Tzirulnik, presidente do Instituto Brasileiro de Direito do Seguro (IBDS), afirmou em análise publicada pela instituição que “o contrato de seguro depende da definição do risco coberto”, o que pode incluir restrições específicas relacionadas ao perfil do condutor.

Dados da Superintendência de Seguros Privados (Susep) indicam que o seguro automotivo segue entre os principais segmentos do mercado segurador brasileiro. Segundo levantamento divulgado pela autarquia, o setor arrecadou mais de R$ 70 bilhões em prêmios em 2025, mantendo crescimento impulsionado pelo aumento da frota e pela retomada das vendas de veículos.

Enquanto as seguradoras discutem possíveis adaptações nas apólices, especialistas orientam proprietários de veículos a consultar previamente as condições do contrato antes de utilizar o carro em aulas práticas ou exames de direção. A recomendação é verificar cláusulas relacionadas à condução por terceiros e comunicar formalmente à seguradora sobre qualquer alteração na finalidade de uso do automóvel.

O debate também ocorre em meio às discussões sobre o custo da CNH no Brasil. O governo federal argumenta que as novas regras podem reduzir gastos com autoescolas e ampliar o acesso à habilitação, especialmente entre jovens e trabalhadores de baixa renda. 

Foto: Detran SP – Divulgação 

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