Aplicativos no e-commerce: especialista explica se ferramenta é estratégica ou uma armadilha custosa
Por Bárbara Souza
No cenário cada vez mais competitivo do comércio eletrônico brasileiro, os aplicativos mobile surgem como uma potencial vantagem estratégica para empresas que buscam proximidade com seus consumidores. Porém, como alerta Thiago Da Cruz Pisano, CEO da 87Labs, afirma que o simples fato de desenvolver um aplicativo não garante retorno efetivo para as empresas, muito menos fidelidade por parte dos usuários.
“É comum que os consumidores possuam inúmeros aplicativos instalados em seus dispositivos, mas façam uso efetivo de poucos”, afirma Pisano. A observação se reflete em dados: de acordo com a Sensor Tower, o usuário médio de smartphone acessa apenas cerca de 30 aplicativos por mês, embora mantenha mais de 80 instalados em seus dispositivos. Isso mostra que, para um aplicativo conquistar espaço no dia a dia do consumidor, precisa oferecer algo além da conveniência, precisa entregar valor real.
O desafio da fragmentação tecnológica
Pisano destaca ainda os obstáculos estruturais enfrentados por empresas brasileiras, que frequentemente operam com equipes e tecnologias fragmentadas: uma para desktop, outra para mobile e uma terceira para aplicativos, muitas vezes usando diferentes sistemas de gestão de conteúdo (CMS). Essa divisão acarreta em custos operacionais altos e atritos na experiência do usuário.
Essa realidade contrasta com mercados mais maduros, onde “há maior integração entre site, mobile e aplicativo, o que reduz custos e proporciona uma experiência mais fluida ao consumidor”. O exemplo vem de gigantes como Amazon e Alibaba, que investem em arquitetura digital unificada e equipes multidisciplinares, permitindo entregas mais consistentes e personalizadas.
O comportamento do consumidor e a busca por valor
De acordo com a NielsenIQ, 54% dos consumidores brasileiros dizem preferir usar sites mobile para compras, especialmente quando estes oferecem usabilidade eficiente. O motivo? Evitar o download de mais um app, já que atualmente o espaço de armazenamento é muito importante, considerando a alta demanda por outras aplicações. Pisano confirma essa tendência ao afirmar que “há uma tendência observada entre os consumidores mais experientes digitalmente de optarem por realizar compras diretamente em sites mobile”.
Nesse cenário, para que um aplicativo seja viável, ele precisa entregar diferenciais concretos. Pisano cita funcionalidades como geolocalização, ofertas personalizadas e inteligência artificial integrada como recursos decisivos para garantir a permanência do app no smartphone do consumidor.
Custo, viabilidade e o papel dos pequenos negócios
A realidade dos pequenos e médios negócios brasileiros, porém, é diferente. O desenvolvimento e manutenção de um aplicativo competitivo é caro e demanda investimento em tecnologia, marketing e equipe. “Por esse motivo”, diz Pisano, “para muitas empresas de menor porte, concentrar esforços em marketplaces consolidados e otimizar os canais mobile e de atendimento, como o WhatsApp, pode ser uma estratégia mais eficaz e acessível”.
De fato, dados do SEBRAE revelam que mais de 70% das micro e pequenas empresas brasileiras que vendem online o fazem por meio de marketplaces. Plataformas como Mercado Livre, Shopee e Amazon oferecem visibilidade, infraestrutura pronta e confiança do consumidor — ativos valiosos para quem está começando.
Além disso, o WhatsApp se consolida como ferramenta essencial no relacionamento com o cliente. O Relatório Panorama Mobile Time/Opinion Box indica que 83% dos brasileiros já usaram o app para conversar com empresas, seja para tirar dúvidas, receber suporte ou concluir uma compra.
App como ferramenta estratégica, mas com planejamento
Embora reconheça o potencial dos aplicativos, Pisano defende que a decisão de criar um app deve ser cuidadosamente planejada. “Recursos como notificações segmentadas, campanhas personalizadas, atendimento automatizado via inteligência artificial e ações promocionais integradas ao aplicativo podem elevar o engajamento, desde que sejam planejados de forma estratégica.”
Em um país ainda em amadurecimento digital, como o Brasil, a busca por soluções mais integradas e acessíveis se mostra o caminho mais sustentável. A chave está em construir experiências centradas no consumidor, sejam elas via aplicativo, site mobile ou canais diretos como o WhatsApp.
O aplicativo pode sim ser um diferencial competitivo no e-commerce brasileiro — mas não é uma solução mágica. Como resume Pisano, “seu sucesso está diretamente ligado à capacidade de oferecer diferenciais que justifiquem seu uso constante”. Em um ambiente onde recursos são escassos e o consumidor está cada vez mais exigente, apostar em experiências bem pensadas, fluidas e integradas pode ser o divisor entre o sucesso e o fracasso digital.
Foto: Pexels
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