Seguro rural enfrenta desafio com eventos climáticos e baixa cobertura no Brasil
Por Redação
O aumento da frequência de eventos climáticos e a possibilidade de um novo ciclo do fenômeno El Niño voltaram a colocar o seguro rural no centro das discussões do agronegócio brasileiro. Apesar da expansão da produção agrícola nas últimas décadas, a cobertura das lavouras por apólices permanece em um dos menores níveis dos últimos 20 anos, elevando a exposição de produtores a perdas provocadas por seca, excesso de chuva, geadas e outras ocorrências climáticas. O cenário também reacende o debate sobre a necessidade de ampliar políticas públicas voltadas à gestão de riscos no campo.
Dados do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) mostram que apenas uma parcela da área cultivada no país conta atualmente com proteção securitária. O Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR), criado para subsidiar parte do custo das apólices, tem enfrentado limitações orçamentárias nos últimos anos, reduzindo sua capacidade de atender à demanda crescente dos produtores. Ao mesmo tempo, as mudanças climáticas têm aumentado a frequência de eventos extremos, pressionando o mercado segurador e elevando os custos das coberturas.
Segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), instrumentos de gestão de risco, como o seguro agrícola, são considerados essenciais para preservar a renda do produtor, garantir a continuidade da produção e reduzir impactos econômicos decorrentes de desastres naturais. No Brasil, especialistas avaliam que a ampliação da cobertura é necessária para fortalecer a segurança alimentar e dar maior previsibilidade ao setor.
Para o secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, Guilherme Campos, o seguro rural é uma ferramenta indispensável para reduzir a vulnerabilidade da produção diante da variabilidade climática. Em manifestações públicas da pasta, o secretário tem defendido a necessidade de ampliar o alcance do programa de subvenção e garantir previsibilidade orçamentária para estimular a contratação de apólices por produtores de diferentes portes.
A avaliação também é compartilhada pelo presidente da Comissão de Seguro Rural da Federação Nacional de Seguros Gerais (FenSeg), Daniel Nascimento. Em nota divulgada pela entidade, ele afirmou que “o seguro rural depende de previsibilidade para cumprir plenamente seu papel de instrumento de gestão de riscos” e destacou que a continuidade dos contingenciamentos orçamentários compromete o planejamento tanto dos produtores quanto das seguradoras.
Clima aumenta pressão sobre sistema de proteção
Estudos do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) e do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) apontam que os eventos climáticos extremos têm se tornado mais frequentes no país, afetando culturas em diferentes regiões. Esse cenário aumenta o risco das operações agrícolas e reforça a importância de mecanismos financeiros capazes de reduzir perdas econômicas.
Além da proteção individual ao produtor, o seguro rural exerce papel relevante para o sistema de crédito agrícola. Instituições financeiras consideram a contratação da cobertura um instrumento de mitigação de riscos nas operações de financiamento, contribuindo para maior estabilidade do setor. A baixa cobertura, porém, amplia a dependência de renegociações de dívidas e de medidas emergenciais sempre que ocorrem perdas generalizadas nas safras.
Entidades do setor defendem que o fortalecimento do seguro rural passa por uma combinação de maior previsibilidade para o orçamento da subvenção federal, desenvolvimento de novos produtos, uso de tecnologias para avaliação de riscos e ampliação da participação do mercado privado. Também cresce o interesse por modalidades como o seguro paramétrico, que utiliza indicadores climáticos para acelerar o pagamento de indenizações.
Com a nova safra se aproximando e a possibilidade de influência do El Niño sobre o regime de chuvas em parte do território nacional, o debate sobre a ampliação da cobertura ganha força entre governo, seguradoras e representantes do agronegócio. A avaliação predominante é que ampliar o acesso ao seguro rural será uma das principais estratégias para reduzir os impactos econômicos dos eventos climáticos sobre a produção agrícola brasileira nos próximos anos.
Foto: Valter Campanato/Agência Brasil
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