RH: como tecnologia, novos salários e gestão de pessoas estão redesenhando o mercado de trabalho
Por Bárbara Souza
O mercado de trabalho na área de Recursos Humanos (RH) está passando por uma transformação profunda. As tendências que emergem neste ano não apenas refletem os impactos da automação e da inteligência artificial (IA), mas também reforçam a importância da experiência humana no ambiente de trabalho, uma dualidade que pode definir o novo contrato entre empregadores e empregados, e o parâmetro dos salários de trabalhadores da área.
A adoção de inteligência artificial deixou de ser promessa para se tornar parte do cotidiano das equipes de RH. Dados recentes indicam que cerca de 65% dos líderes de RH veem a IA como positiva para suas operações, com aplicações significativas em recrutamento, aprendizagem e gestão de desempenho, diminuindo o tempo dedicado a tarefas administrativas e permitindo que profissionais se concentrem em atividades estratégicas e de maior valor humano.
Mais do que ferramentas, sistemas de IA começam a desempenhar papéis autônomos no gerenciamento de processos, com “agentic AI”, uma forma de IA que pode planejar e executar tarefas complexas com supervisão humana, ganhando espaço nas organizações. Embora ainda mais comum em grandes empresas, essa tecnologia sinaliza uma mudança de paradigma na automação de funções tradicionais de RH.
Mas a tecnologia não vem sem desafios. A integração acelerada de IA também traz questões éticas, de governança e de confiança, que hoje se posicionam no centro das prioridades dos líderes de RH. O relatório “State of the Workplace 2026” mostra que 72% dos profissionais de RH reconhecem que as expectativas dos trabalhadores em relação às empresas cresceram, com forte ênfase em liderança eficaz e cultura organizacional robusta.
Essas expectativas refletem tendências mais amplas do mercado de trabalho. A retenção de talentos, por exemplo, segue um tema crítico. Estratégias que combinam tecnologia e empatia, como análise de sentimento em tempo real e iniciativas de reconhecimento contínuo, têm sido adotadas para melhorar a experiência do colaborador, que, segundo pesquisas, está diretamente ligada à satisfação no trabalho e à probabilidade de permanência na empresa.
A transformação tecnológica também altera a definição de talento e carreira. A adoção de modelos de contratação baseados em habilidades, em vez de títulos formais ou histórico de experiências, está ganhando força como uma maneira mais justa e eficaz de conectar profissionais às oportunidades certas. Ferramentas de análise avançada ajudam a mapear competências internas e sugerir trajetórias de desenvolvimento, reforçando a mobilidade interna como um motor de retenção e crescimento sustentável.
No front salarial, a modernização das funções de RH acompanha tendências gerais de valorização de papéis estratégicos. Por exemplo, posições como diretor de Recursos Humanos e analista sênior de remuneração e benefícios lideram faixas salariais mais altas no setor, refletindo a centralidade desses profissionais nas decisões organizacionais.
Entretanto, a cultura organizacional não se redefine apenas por tecnologia ou remuneração. Relatórios internacionais apontam para um risco crescente de “cultura atrophy”, um fenômeno em que mudanças rápidas e descoordenadas deixam os vínculos culturais enfraquecidos e tornam mais difícil fomentar engajamento e produtividade no longo prazo. Isso reforça a ideia de que relações humanas sólidas e gestão focada em propósito continuam sendo alicerces de um RH eficaz.
Ao mesmo tempo, a saúde mental e o bem-estar no trabalho mantêm-se no topo das prioridades. Plataformas de bem-estar que monitoram padrões de estresse e engajamento em tempo real ajudam organizações a antecipar riscos de burnout e agir antes que esses fatores se traduzam em turnover, que é uma preocupação que 83% dos profissionais já relatam sentir de forma constante.
Olhando para 2026, portanto, fica claro que o RH não está apenas adaptando seus processos a um ambiente tecnológico em rápida evolução, mas ressignificando sua própria função: de um departamento operacional para um parceiro estratégico que equilibra tecnologia, cultura e propósito. Neste novo cenário, organizações que conseguirem harmonizar automação com conexão humana terão uma vantagem competitiva sustentável, um imperativo para prosperar na era do trabalho híbrido e digital.
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