Petróleo e El Niño elevam riscos para preços dos alimentos e podem pressionar economia
Por Redação
A combinação entre os efeitos do El Niño e as oscilações do petróleo mantém sob atenção os preços dos alimentos no Brasil no segundo semestre de 2026, com possíveis reflexos sobre a inflação, o orçamento das famílias e os custos de produção. O cenário, acompanhado por entidades do setor de abastecimento e órgãos do governo, ocorre em um momento em que os preços dos alimentos apresentam recuo no curto prazo, mas as condições climáticas aumentam a incerteza para os próximos meses.
O alerta sobre os alimentos ganhou força em julho, quando a Associação Brasileira de Supermercados (Abras) apontou o petróleo e o El Niño como fatores capazes de pressionar a cadeia de abastecimento. Naquele momento, o Abrasmercado, indicador que reúne 35 produtos de consumo, acumulava alta de 6,82% no ano até maio, com avanço de 41,09% do feijão, 75,84% da batata, 86,17% do tomate e 48,88% da cebola.
O quadro mudou nos meses seguintes. Em julho, a cesta da Abras caiu 1,24% frente a junho e ficou em R$ 841,95. Na comparação com julho de 2025, no entanto, ainda havia alta de 3,50%. Em agosto, a Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos, realizada pela Conab e pelo Dieese, também registrou redução do custo dos alimentos básicos em 25 das 27 capitais pesquisadas.
Os números ajudam a explicar parte do comportamento da inflação. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) caiu 0,32% em agosto e acumulou 4,22% em 12 meses.
El Niño e inflação dos alimentos
Apesar do alívio recente, o clima permanece como um fator de risco. O Painel El Niño, formado por órgãos como Inmet, INPE, Cemaden e Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), aponta probabilidade superior a 90% de ocorrência de um El Niño de intensidade muito forte no trimestre entre setembro e novembro. As projeções indicam chuvas abaixo da média em partes do Norte, Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste e precipitações acima da média no Sul, além de temperaturas elevadas em grande parte do país.
As alterações no regime de chuvas podem afetar lavouras, pastagens, produtividade e logística, com reflexos nos custos ao longo da cadeia. No início de setembro, o Cemaden informou que o período de maior aquecimento do Pacífico deve ocorrer entre novembro de 2026 e janeiro de 2027.
Para reduzir riscos de desabastecimento, a Conab vem reforçando estoques. Em setembro, a companhia comprou 191 mil toneladas de milho em dois leilões, operação de R$ 228 milhões voltada, entre outros objetivos, ao atendimento de pequenos criadores, principalmente no Nordeste. “O objetivo era comprar 180 mil toneladas de milho para garantir essa oferta caso a estiagem na região Nordeste seja prolongada por conta do El Niño muito forte”, afirmou o presidente da Conab, Silvio Porto.
O impacto econômico, porém, não é considerado inevitável. A ministra do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Fernanda Machiaveli, afirmou em setembro que o governo trabalha com a perspectiva de que o fenômeno não provoque aumento generalizado dos alimentos, diante da oferta de grãos e das medidas de formação de estoques, crédito e apoio à produção.
Uma eventual retomada da inflação dos alimentos reduziria o poder de compra das famílias e poderia atingir principalmente os grupos de menor renda, que destinam parcela maior do orçamento a itens básicos. O próprio IBGE destaca que famílias com renda entre um e cinco salários mínimos são mais sensíveis às oscilações de alimentação e transporte. Dessa forma, petróleo e clima permanecem entre os fatores que podem determinar não apenas os preços nas prateleiras, mas também o comportamento do consumo e da inflação brasileira nos próximos meses.
Foto: Tânia Rêgo – Agência Brasil
LEIA TAMBÉM: Carnaval deverá injetar mais de R$ 5,7 bi na economia carioca