Pastagens degradadas expõem gargalo do agronegócio e desafio estratégico para o futuro da produção
Por Bárbara Souza
As pastagens degradadas ocupam, atualmente, um lugar central no debate sobre o futuro do agronegócio brasileiro. Muito além de um problema restrito à pecuária extensiva, em que o gado é criado solto em grandes áreas de pastagem, elas revelam um gargalo estrutural que afeta produtividade, competitividade e sustentabilidade em uma das cadeias mais relevantes da economia nacional.
Levantamentos da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e do Atlas das Pastagens, desenvolvido pelo Laboratório de Processamento de Imagens e Geoprocessamento da Universidade Federal de Goiás, indicam que o Brasil possui cerca de 177 milhões de hectares de pastagens. Desse total, aproximadamente 40% apresentam algum grau de degradação moderada, enquanto cerca de 20% já se encontram em estado severo. Na prática, isso significa menor capacidade de suporte animal, queda na produção de carne e leite e aumento da pressão por abertura de novas áreas.
Estudos recentes indicam que cerca de 28 milhões de hectares de pastagens degradadas no Brasil têm grande potencial para recuperação e transformação em áreas agrícolas produtivas, especialmente para cultivo de grãos. Além disso, dados divulgados por órgãos do governo federal mostram que esse aproveitamento poderia expandir significativamente a produção sem avançar sobre biomas sensíveis, como a Amazônia e o Cerrado.
No entanto, o principal desafio está no custo e na escala dessa transformação. A Fundação Getulio Vargas (FGV) estima que recuperar totalmente as pastagens degradadas no país exigiria investimentos superiores a R$ 380 bilhões. Esse valor considera a adoção de tecnologias modernas de manejo e técnicas corretivas para o solo, essenciais para garantir produtividade sustentável.
Para além do Brasil
O problema, contudo, não se limita ao Brasil. Relatórios internacionais apontam que entre 14% e 17% das pastagens globais já apresentam sinais de degradação. De acordo com a Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação, até metade das pastagens naturais no mundo sofreu algum nível de comprometimento. Esse cenário afeta diretamente a segurança alimentar e reduz a renda de milhões de produtores rurais.
Portanto, investir na recuperação de pastagens degradadas não é apenas uma oportunidade para o agronegócio brasileiro, mas também uma ação estratégica para garantir sustentabilidade, produtividade e preservação ambiental em escala global.
No agronegócio brasileiro, as causas da degradação das pastagens são claras. Manejo inadequado, superpastejo, falta de adubação, compactação do solo e, cada vez mais, os efeitos das mudanças climáticas, como secas prolongadas e chuvas intensas concentradas em curtos períodos, diminuem a fertilidade, aceleram a erosão e reduzem a resiliência das áreas produtivas.
Diante desse cenário, recuperar pastagens se tornou uma das principais oportunidades para aumentar a eficiência do setor. Programas como o Plano ABC, voltado à agricultura de baixa emissão de carbono, mostram que práticas como rotação de pastagens, integração lavoura-pecuária e correção do solo podem elevar a produtividade e, ao mesmo tempo, reduzir a emissão de gases de efeito estufa.
Mais do que uma questão ambiental, as pastagens degradadas representam um ponto estratégico para a competitividade do agronegócio brasileiro. Transformar áreas improdutivas em terras eficientes é decisivo para produzir mais com menor impacto ambiental, fortalecendo o protagonismo do país no mercado global de alimentos.
Foto: Governo Mato Grosso do Sul/ Divulgação
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