Os bilhões perdidos em desastres socioambientais no Brasil: “Não há economia sem um planeta saudável”, diz especialista
Por Bárbara Souza
“Não há economia sem um planeta saudável e um meio ambiente preservado.” A afirmação da engenheira ambiental Viviane Japiassú, em entrevista ao Diário do Acionista, resume um dilema que o Brasil enfrenta com urgência: como manter o crescimento econômico diante da destruição ambiental e da intensificação dos desastres naturais. Segundo ela, os efeitos já são sentidos em todos os setores da economia, da agricultura ao comércio, com prejuízos que ultrapassam R$ 570 bilhões nas últimas três décadas.
“Desde 1991, os desastres causaram no Brasil quase 5.500 mortes e afetaram mais de 130 milhões de pessoas. 97% desses números estão associados a desastres hidrológicos, climatológicos ou meteorológicos. O impacto na economia é gigantesco!”, alerta Viviane. Ela cita dados do Atlas Digital de Desastres no Brasil, da Secretaria Nacional de Defesa Civil (SEDEC/MIDR), que reúne informações registradas pelas defesas civis no Sistema Integrado de Informações sobre Desastres (S2iD).
Os setores mais atingidos são os que dependem diretamente de recursos naturais: “A agricultura concentra 65% dos prejuízos privados, seguida da pecuária com 19% e comércio (10%)”, detalha a engenheira. Eventos extremos como enchentes, secas e deslizamentos vêm comprometendo cadeias produtivas, destruindo estoques e paralisando operações em todo o território nacional.
“As grandes empresas já consideram os desastres em suas análises de risco, pois precisam dispor de planos de gerenciamento de crise, inclusive com protocolos claros de comunicação em caso de desastres que afetem sua operação ou envolvam seus colaboradores ou até seus produtos”, explica Viviane. Segundo ela, empresas que dependem de insumos sensíveis ao clima precisam redobrar a gestão de fornecedores e estoques para manter a continuidade da produção.
Mesmo quando não há danos diretos aos estabelecimentos, o impacto pode ser severo. “Quando uma chuva intensa atinge uma cidade, muitos negócios ficam inacessíveis. Mesmo que o bairro onde está o negócio não seja diretamente atingido, os colaboradores muitas vezes moram nos bairros mais vulneráveis e não conseguem se deslocar até o trabalho, impactando diretamente a operação. Tem ainda o risco das instalações e estoques da empresa serem afetados e ficarem inutilizados, causando danos e prejuízos significativos”, acrescenta.
A escassez de água — cada vez mais comum em regiões brasileiras — também atinge a produtividade industrial e o funcionamento de comércios e serviços. “As secas e as inundações podem destruir safras e resultar na morte de animais, causando prejuízos ao setor agropecuário. E a falta de água compromete diretamente o funcionamento de empresas e indústrias”, diz.
Para a especialista, é impossível separar a economia da saúde ambiental. “Toda a evolução tecnológica que observamos e vivenciamos com entusiasmo parte do uso de recursos naturais. Computadores, celulares e robôs têm em sua composição materiais plásticos produzidos com derivados de petróleo, vidro e componentes eletrônicos que levam metais em sua composição. Esses metais são obtidos a partir da mineração, ou seja, são retirados quase sempre do solo”, explica.
Ela reforça que preservar o solo, a água e o ar é garantir a sobrevivência não apenas dos negócios, mas da própria humanidade. “Nós dependemos do planeta, não há presente e tampouco futuro se esquecermos as nossas origens. Estamos aqui nesse planeta junto com milhões de espécies que, assim como nós, dependem dos recursos naturais. Então precisamos ter essa consciência e respeitar os limites do planeta nos adaptando aos ciclos naturais.”
A consequência econômica dos desastres também pode ser medida em impacto direto sobre o Produto Interno Bruto (PIB). “Em 2011, quando os municípios da região serrana fluminense foram afetados por um megadesastre que causou quase 1.000 mortes, os danos e prejuízos causados por desastres no estado do Rio de Janeiro corresponderam a quase 2% do PIB. Pode parecer pouco, mas estamos falando de mais de R$ 10 bilhões que poderiam ser investidos em infraestrutura e políticas públicas para beneficiar a população”, afirma Viviane.
No caso de Nova Friburgo, município duramente atingido naquele ano, os efeitos foram devastadores. “Os danos e prejuízos causados por desastres corresponderam a 193% do PIB. O município recorreu à União, ao Estado, a diversas parcerias e muito trabalho voluntário para passar por essa catástrofe — e até hoje ainda sentem as consequências.”
Viviane alerta ainda para a possibilidade de subnotificação nos dados oficiais. “Se colocarmos também na conta os danos prolongados de saúde pública, como aqueles relativos à saúde mental, os valores podem ser ainda maiores.”
Para ela, a equação é clara: “Desenvolvimento sustentável é aquele que respeita os limites de recarga da natureza e garante que as futuras gerações também tenham acesso aos recursos naturais. A escassez de água, energia, minerais e produtos agropecuários impacta diretamente na economia, elevando preços, desequilibrando setores. E os impactos ambientais também podem causar desequilíbrios ecológicos que resultam em doenças e até pandemias, como vimos em 2020 com a Covid-19.”
Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil
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