Juros do cartão de crédito rotativo avançam e chegam a 451,5% ao ano
Andreia Verdélio – Repórter da Agência Brasil
As taxas médias de juros cobradas pelos bancos subiram para famílias e empresas em agosto, de acordo com as Estatísticas Monetárias e de Crédito divulgadas nesta segunda-feira (29), pelo Banco Central (BC), em Brasília.

Nas operações de crédito livre para pessoas físicas, o principal destaque foi o avanço de 5,3 pontos percentuais na taxa do cartão de crédito rotativo. Com isso, os juros chegaram a 451,5% ao ano, um dos níveis mais elevados do mercado financeiro.
Apesar do teto imposto à cobrança dos juros do rotativo, em vigor desde janeiro do ano passado, as taxas seguem oscilando sem apresentar uma queda significativa ao longo dos meses. Isso ocorre porque a medida busca reduzir o endividamento das famílias, mas não altera a taxa de juros definida no momento da contratação do crédito.
Nos 12 meses encerrados em agosto, os juros do cartão de crédito rotativo subiram 24,6 pontos percentuais para as famílias. Além disso, o funcionamento da modalidade contribui para o aumento do custo. O crédito rotativo tem duração de até 30 dias e entra em vigor quando o consumidor paga menos do que o valor total da fatura do cartão.
Nesse caso, o cliente automaticamente contrai um empréstimo. A partir daí, começa a pagar juros sobre o saldo que não conseguiu quitar, o que eleva rapidamente o custo da dívida.
Após o período de 30 dias, as instituições financeiras passam a parcelar a dívida do cartão de crédito. Nesse formato, conhecido como cartão parcelado, os juros recuaram 2,7 pontos percentuais no mês. No acumulado de 12 meses, a queda foi de 1,6 ponto percentual, levando a taxa para 180,7% ao ano.
No conjunto das operações, a taxa média de juros das concessões de crédito livre para as famílias subiu 0,5 ponto percentual em agosto. Com isso, o indicador acumulou alta de 6,6 pontos percentuais em 12 meses e atingiu 58,4% ao ano.
Já nas operações com empresas, os juros médios das novas contratações de crédito livre avançaram 0,2 ponto percentual no mês. Em 12 meses, a alta somou 4,2 pontos percentuais, fazendo a taxa chegar a 25,2% ao ano. Nesse cenário, chamou atenção o aumento mensal de 9,6 pontos percentuais na taxa média das operações de capital de giro com prazo de até 365 dias, que alcançou 38% ao ano.
No crédito livre, os bancos têm autonomia para emprestar os recursos captados no mercado e definir as taxas de juros cobradas dos clientes. Em contrapartida, o crédito direcionado segue regras estabelecidas pelo governo. Esse tipo de financiamento atende, principalmente, os setores habitacional, rural, de infraestrutura e o microcrédito.
No crédito direcionado para pessoas físicas, a taxa ficou em 11,1% ao ano em agosto. O índice recuou 0,2 ponto percentual em relação a julho, mas avançou 1,1 ponto percentual em 12 meses. Já para as empresas, a taxa caiu 0,1 ponto percentual no mês e subiu 2,7 pontos percentuais em 12 meses, atingindo 13,6% ao ano.
Juros em alta
Com isso, ao considerar recursos livres e direcionados para famílias e empresas, a taxa média de juros das concessões subiu 0,2 ponto percentual em agosto. No acumulado de 12 meses, o avanço foi de 4,2 pontos percentuais. Assim, o indicador atingiu 31,8% ao ano.
Como esperado, a alta dos juros bancários acompanha o ciclo de elevação da taxa básica da economia, a Selic. O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central fixou a taxa em 15% ao ano. A Selic funciona como o principal instrumento do BC para controlar a inflação.
Ao elevar a taxa básica, o Banco Central busca esfriar a demanda e conter a inflação. Isso ocorre porque juros mais altos encarecem o crédito e, ao mesmo tempo, estimulam a poupança. Como resultado, as famílias consomem menos e os preços tendem a desacelerar. O próximo encontro do Copom está marcado para novembro. A expectativa do mercado é que a Selic permaneça em 15% ao ano, pelo menos, até o fim de 2025.
Nesse mesmo movimento, o spread bancário também apresentou alta. O indicador avançou 0,3 ponto percentual no mês e 2,2 pontos percentuais em 12 meses. O spread mede a diferença entre o custo de captação dos bancos e as taxas médias cobradas dos clientes.
Além disso, essa margem cobre custos operacionais, riscos de inadimplência, impostos e outras despesas. Ao final, o spread também reflete o lucro das instituições financeiras.
Aumento no saldo
Em agosto, as concessões de crédito somaram R$ 633,8 bilhões. Nas séries sazonalmente ajustadas, o volume recuou 0,2% no mês. Esse movimento refletiu a queda de 2,3% nas operações com pessoas jurídicas. Em contrapartida, as concessões para as famílias avançaram 1,5%.
No acumulado de 12 meses, as concessões nominais cresceram 11,4%. As operações com empresas lideraram o avanço, com alta de 14%. Já o crédito para pessoas físicas subiu 9,3% no mesmo período.
Como resultado, o estoque total de empréstimos concedidos pelos bancos do Sistema Financeiro Nacional (SFN) alcançou R$ 6,757 trilhões. O montante representa crescimento de 0,5% em relação a julho. Esse desempenho decorreu da expansão de 0,2% da carteira de crédito para pessoas jurídicas e de 0,7% da carteira voltada às famílias. Ao fim do mês, os saldos somaram R$ 2,547 trilhões e R$ 4,209 trilhões, respectivamente.
Além do crédito bancário, o crédito ampliado ao setor não financeiro também apresentou avanço. Esse indicador considera os recursos disponíveis para empresas, famílias e governos, independentemente da fonte, como bancos, mercado de títulos ou dívida externa. Em agosto, o volume atingiu R$ 19,748 trilhões, com crescimento de 1,1% no mês. O resultado refletiu, principalmente, o aumento de 2,8% nos títulos públicos de dívida.
Na comparação em 12 meses, o crédito ampliado cresceu 11,7%. O avanço foi impulsionado pela alta nos títulos públicos de dívida, que subiram 17,0%. Também contribuíram os empréstimos do SFN, com crescimento de 9,7%, e os títulos privados de dívida, que avançaram 17,2%.
Endividamento das famílias
Segundo o Banco Central, a inadimplência, que considera atrasos superiores a 90 dias, alcançou 3,9% em agosto. Desse total, as operações com pessoas físicas responderam por 4,8%. Já os contratos com pessoas jurídicas registraram índice de 2,6%.
Em relação ao endividamento das famílias, o indicador ficou em 48,6% em julho. Esse índice mede a relação entre o saldo das dívidas e a renda acumulada em 12 meses. No mês, houve redução de 0,2 ponto percentual. Em 12 meses, porém, o indicador avançou 0,7 ponto percentual. Ao desconsiderar o financiamento imobiliário, que consome parcela relevante da renda, o endividamento recuou para 30,4% no sétimo mês do ano.
Já o comprometimento da renda, que compara o valor médio destinado ao pagamento das dívidas com a renda média do período, atingiu 27,9% em julho. O indicador subiu 0,1 ponto percentual em relação ao mês anterior e acumulou alta de 1 ponto percentual em 12 meses.
Por fim, o Banco Central explica que esses dois últimos indicadores apresentam maior defasagem na divulgação. Isso ocorre porque a autoridade monetária utiliza dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), elaborada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil
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