Exportações de carne e produtos do agro brasileiro entram em risco com tarifa de 50% imposta por Trump, apontam representantes dos setores
Por Bárbara Souza
A tarifa de 50% sobre importações de produtos brasileiros, anunciada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, acendeu um alerta vermelho para o setor exportador do agronegócio nacional. A medida, que entra em vigor em 1º de agosto, ameaça diretamente as vendas externas de carne bovina, suína e de outros produtos agropecuários, com impactos bilionários para a balança comercial brasileira e possíveis consequências para a economia interna.
Segundo dados do governo, somente no primeiro semestre de 2025, o Brasil exportou 181,5 mil toneladas de carne bovina para os EUA, movimentando cerca de US$ 1,04 bilhão — uma alta de mais de 100% em comparação ao mesmo período de 2024. Com a nova tarifa, essas vendas correm risco de serem drasticamente reduzidas.
A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) afirmou que o custo da carne brasileira ficará tão elevado que “inviabilizará a venda do produto para os Estados Unidos”.
“A Abiec reforça a importância de que questões geopolíticas não se transformem em barreiras ao abastecimento global e à garantia da segurança alimentar, especialmente em um cenário que exige cooperação e estabilidade entre os países”, destacou. A entidade também se colocou à disposição para dialogar com autoridades americanas:
“Estamos dispostos ao diálogo, de modo que medidas dessa natureza não gerem impactos para os setores produtivos brasileiros nem para os consumidores americanos, que recebem nossos produtos com qualidade, regularidade e preços acessíveis.”
Exportações em xeque
A nova política tarifária também preocupa a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), que representa os interesses do setor no Congresso Nacional. A frente alertou que a medida afeta diretamente a competitividade das exportações brasileiras, além de provocar desvalorização cambial e aumento no custo de insumos.
“A nova alíquota produz reflexos diretos e atinge o agronegócio nacional, com impactos no câmbio, no consequente aumento do custo de insumos importados e na competitividade das exportações brasileiras”, diz nota da FPA. “Diante desse cenário, a FPA defende uma resposta firme e estratégica: é momento de cautela, diplomacia afiada e presença ativa do Brasil na mesa de negociações.”
Medida política com impacto econômico
Para a Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), a tarifa de 50% não é apenas uma medida econômica, mas sobretudo uma retaliação política.
O presidente-executivo da entidade, José Augusto de Castro, declarou:
“É certamente uma das maiores taxações a que um país já foi submetido na história do comércio internacional, só aplicada aos piores inimigos, o que nunca foi o caso do Brasil. Além das dificuldades de comércio com os Estados Unidos, o anúncio da Casa Branca pode criar uma imagem negativa do Brasil e gerar medo em importadores de outros países de fechar negócios com as nossas empresas, afinal, quem vai querer se indispor com o presidente Trump?”
A AEB também aponta que o impacto pode ser sentido em toda a economia brasileira, caso o Brasil perca espaço nos mercados internacionais.
Especialista vê risco direto no preço da carne e da moeda
Para o economista Presley Vasconcellos, especialista em desenvolvimento e comércio exterior, o Brasil sofre hoje as consequências de sua forte dependência das exportações de commodities:
“Nós temos um problema grave aqui, que é ser uma economia baseada em commodities… a tarifa imposta pelo Trump ao Brasil [de 10%] foi uma das mais baixas entre outras nações… O milho que está sendo plantado vai ser vendido para servir de ração, para animal. Então, isso vai impactar, de forma direta, o preço das carnes”, disse em entrevista ao jornal Brasil de Fato.
Com a valorização do dólar após o anúncio — o real caiu 2% frente à moeda americana —, o custo de insumos importados, como fertilizantes e defensivos, tende a subir. Isso pressiona os preços internos e encarece o custo final dos produtos vendidos ao exterior, minando a competitividade brasileira nos mercados internacionais.
Mercados alternativos e diplomacia
Diante do risco de perdas nos EUA, autoridades brasileiras e entidades do setor buscam abrir ou ampliar mercados alternativos. O economista Marcos Jank, professor da FGV Agro, defende que o país diversifique seus destinos de exportação e atue diplomaticamente para reverter ou mitigar a medida americana.
Para Jank, “o Brasil precisa usar esse revés como estímulo para fortalecer sua presença comercial em outras regiões, como Ásia e Oriente Médio, além de modernizar sua política comercial”.
A tarifa imposta por Trump é uma ameaça concreta às exportações brasileiras de carne e outros produtos do agronegócio. Se mantida, pode significar bilhões de dólares em perdas, retração de mercados e desconfiança internacional.
A urgência agora é política: retomar o diálogo diplomático, ampliar acordos comerciais e garantir que o Brasil continue sendo um fornecedor confiável, competitivo e presente no cenário global.
Foto: DIVULGAÇÃO/MAPA
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