Doria anuncia que SP irá aplicar quarta dose da vacina contra Covid-19

O governador de São Paulo, João Doria (foto), afirmou nesta quarta-feira que o estado irá adotar a quarta dose da vacina contra Covid-19.
Em coletiva de imprensa, Doria disse que a quarta dose está em estudo no governo estadual, mas não informou uma data para dar início ao calendário. “O fato de considerar não significa que a aplicação (da quarta dose) será imediata ou de curto prazo porque não vai.”
O tom incerto em relação ao tema foi diferente da forma assertiva como Doria anunciou a medida mais cedo em entrevista à rádio Eldorado. “[A quarta dose] já é confirmada pelo comitê científico do governo de São Paulo. Nós estamos preparados para iniciar a quarta dose de reforço”, disse o governador à rádio.
Segundo o secretário estadual de Saúde, Jean Gorinchteyn, o estado tem cerca de 2 milhões de pessoas sem o esquema vacinal completo que devem ser imunizadas antes do início da aplicação da quarta dose. “Neste momento temos que focar naqueles que não estão completamente imunizados”, disse.
De acordo com Doria, se trata de pessoas que esqueceram de tomar a segunda dose, e não de pessoas contrárias à imunização. Por isso, o estado adotou um método de envio de SMS para reforçar a necessidade de tomar a segunda dose.
Em relação à marca da vacina a ser usada para a quarta dose, Gorinchteyn disse que ainda não há estratégia definida. “Não queremos nem usar o termo ‘quarta dose’ por se tratar de uma vacina que deverá ser aplicada todos os anos.”
​Mais cedo, em entrevista à rádio Eldorado, o governador afirmou que a dose de reforço na imunização será adotada “independentemente de haver ou não recomendação do Ministério da Saúde”.​
Na entrevista, Doria mencionou o número “considerável” de pessoas que ainda não tomaram a segunda dose no estado. Por isso, a quarta dose será aplicada após o avanço dessa fila. “Avançando na segunda dose, nós possamos em São Paulo iniciar a dose de reforço, a quarta dose, e seguindo também uma ordem de faixa etária.”
O governador afirmou que a quarta dose é aprovada pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). “A Anvisa tem sido um exemplo competente e respeitável de atitudes em defesa da ciência e da vida.”
Na última segunda-feira (7), nota técnica divulgada pelo Ministério da Saúde afirmou que não há dados suficientes para a necessidade de aplicação da quarta dose da vacina na população.
“Antes de avançarmos rumo a novas indicações no calendário do PNO [Plano Nacional de Operacionalizações], se faz necessário compreender o cenário epidemiológico com maior detalhamento quanto às hospitalizações, óbitos e infecções pela Covid-19 entre determinados grupos etários e sua relação com o status de vacinação (vacinados x não vacinados)”, diz a nota técnica publicada.
A recomendação do Ministério da Saúde até o momento é que a quarta dose continue sendo aplicada em imunocomprometidos. Esse grupo passou a receber mais uma dose do imunizante em dezembro do ano passado.
De acordo com o médico infectologista Bruno Scarpelinni, ainda não há evidência de que a quarta dose irá beneficiar a população de forma geral. “Há evidência de efetividade da quarta dose nos grupos que tomaram a Coronavac no início da vacinação em 2021, como idosos e imunodeprimidos”, disse.
Para o infectologista do Hospital das Clínicas e diretor da Sociedade Paulista de Infectologia Evaldo Affonso de Araújo, há dúvidas sobre o uso da segunda dose de reforço de maneira generalizada. “É algo precipitado”, diz. “O mundo todo vive uma crise de suplemento de vacina, então, não faz sentido reforçar a vacinação em determinados países quando há lugares como o continente africano que tem ainda uma subvacinação importante”, continua.
Por enquanto, a quarta dose tem sido ministrada de forma geral no Chile e em Israel. “Com a quarta dose, procuramos manter essa posição de liderança e proteger a saúde e a vida dos nossos compatriotas”, disse o presidente chileno Sebastián Piñera durante anúncio da dose de reforço no início de janeiro.
Estudo conduzido pelo médico e pesquisador Gili Regev-Yochay no hospital Sheba, em Israel, concluiu que a quarta dose da vacina não é capaz de impedir a infecção pela variante ômicron. “A realidade é que a vacina é muito boa para conter as variantes Alfa e Delta, mas não é muito efetiva para conter a ômicron”, disse o médico em entrevista ao jornal The Times of Israel, em janeiro.
Até o momento, o estado de São Paulo aplicou 96 milhões de doses e tem 97% da população com o esquema vacinal completo. Foram aplicadas 17,8 milhões de doses adicionais.
O governador afirmou em coletiva de imprensa que as internações por Covid-19 recuaram pelo oitavo dia consecutivo nesta quarta-feira, após dois meses de alta. “Hoje é o primeiro dia que temos menos de 10 mil pacientes internados em unidades hospitalares”, disse o secretário estadual de Saúde.
O secretário afirmou que o número de 1.521 internações diárias caiu para cerca de 1,2 mil hospitalizações por dia.
O anúncio da quarta dose por Doria inaugurou um novo capítulo na disputa política com o governo federal em torno da vacinação contra Covid-19. Opositores na disputa pela Presidência da República nas próximas eleições, o governador de São Paulo e o presidente Jair Bolsonaro (PL) atuam em lados opostos em relação ao assunto.
Após o anúncio de Doria, o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, criticou a iniciativa e ressaltou a prioridade da pasta em imunizar as pessoas que ainda não receberam a segunda dose. “O governador de São Paulo e outros chefes de Executivos, seja de estado e município, muitas vezes eles interferem no processo decisório a respeito da imunização”, disse em entrevista após reunião com o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL).
Técnicos da Saúde e do PNI (Programa Nacional de Imunizações) devem voltar a avaliar na sexta-feira (11) se indicam a aplicação de nova dose contra a Covid-19.
Em janeiro, o ministrou acusou o tucano de “fazer palanque” com o início da vacinação infantil. Naquele dia, Doria abriu a campanha nacional de imunização do público de 5 a 11 anos com as doses da Pfizer. (Mariana Zylberkan – Folhapress)

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