Atentado em Cabul afunda Biden e abre porta para aliança improvável com Talibã

A crise presidida por Joe Biden (foto) no Afeganistão saiu de vez de seu controle com o atentado duplo desta quinta-feira em Cabul, e o presidente americano deverá se ver forçado a uma aliança impensável há dias com o Talibã.
Há, afinal de contas, um inimigo em comum declarado: o Estado Islâmico Khorasan, sucursal afegã do monstro criado por outra retirada americana do pós-11 de Setembro, a do Iraque.
Naturalmente, não é um processo nem simples nem necessariamente lógico, ainda mais com a animosidade mútua. Mas na prática a carnificina favorece os próximos movimentos dos dois lados que pareciam antagonizar-se sozinhos no país, EUA com seus aliados e os talibãs.
Essa realidade parecia estampada no rosto de Biden durante seu pronunciamento e entrevista coletiva sobre o episódio, no qual morreram ao menos 60 afegãos e 13 soldados americanos.
O presidente estava mais lívido do que o normal e algo atônito. Fixou-se no protocolo, honrar os mortos, insistir que não saiu de forma apressada do Afeganistão após 20 anos de guerra e prometer vingança.
Aí a coisa se adensa, num roteiro que viu o Talibã de tantos ataques terroristas ter de condenar um atentado na cidade que domina agora. É de dar nó em qualquer turbante.
Não que o EI-K seja um amigo, ao contrário. Tendo emergido após a criação da filial que dominou pedaços da Síria e do Iraque, o grupo esposa uma versão ainda mais radical de islamismo jihadista do que o próprio Talibã.
Por definição, o grupo que governou o Afeganistão de 1996 a 2001 não propunha uma guerra santa contra o Ocidente, como seus amigos da Al Qaeda e os derivados ainda mais violentos, como o EI. O Talibã queria o poder, representando uma fatia expressiva da etnia majoritária de um país multifacetado.
Para o Ocidente e sua mídia, era muita complexidade. Melhor colocar todos os barbudos num só balaio e chamá-los de terrorista, ainda que fossem bravos “freedom fighters” nos anos em que atiravam contra os soviéticos.
A multiplicidade de grupos e lealdades sempre dificultou o trabalho americano, como os diversos casos em que a CIA ajudou a armar inimigos declarados dos EUA no pós-11 de Setembro. O EI, seja a matriz ou a filial, busca o internacionalismo de suas ações por acreditar que o Ocidente é o mal.
Sem base possível nos seus antigos territórios no Levante, cortesia principalmente da intervenção de Vladimir Putin na Síria em 2015, o grupo está em pontos do Afeganistão. Diferentemente da Al Qaeda em 2001, contudo, ele não é bem-vindo.
Agora, o joio terá de ser separado do outro joio, considerando que não há trigo nessa disputa.
Se apresenta assim uma oportunidade para o Talibã. Só o grupo pode de fato combater, como já fazia, o EI-K de forma mais efetiva. Entes terroristas se derrotam no solo, não apenas com caças-bombardeiros e drones.
Além disso, a tragédia permitiu aos extremistas admoestarem os EUA, num “odeio dizer que te avisei” sobre os riscos da retirada caótica de Cabul. Que fase, diria o clichê.
Não que estivessem preocupados, dado que o central para o Talibã é ver os estrangeiros fora do país o mais rapidamente possível e ser reconhecido como governo da mesma forma. Não é fácil, claro, ainda mais com os indícios de que sua brutalidade contra mulheres e adversários segue intacta.
Mas tendo um demônio pior na sala, talvez os EUA tenham de recorrer ao antigo diabo, o que terá um efeito deletério ainda a ser aferido para um Biden que já lidara de forma insensível com a desgraça daqueles que se agarravam a seus aviões em fuga.
Se o sangue derramado pode ser útil ao Talibã, ele por outro lado indica que há um período novo à frente. O EI-K não parece ter estrutura para disparar uma guerra civil ou disputar poder, mas pode transformar a vida dos novos governantes num inferno.
Já Biden, por sua vez, se vê afundado na crise e no máximo pode usar isso para finalizar logo sua retirada, marcada para o dia 31. Azar, como sempre, será dos afegãos que ficarão para trás.
O dano do seu “momento Saigon plus” ainda precisa ser precificado, mas a sucessão de erros do presidente dificilmente passará em branco, por mais que se aposte na amnésia progressiva do público ante um noticiário vertiginoso.
Ao fim, a mais longa guerra americana poderá ser finalizada não só com uma derrota, mas com uma aliança tática com o vencedor. Haverá em breve soldados talibãs passando coordenadas com marcadores laser para drones americanos? Hollywood terá trabalho para explicar isso. (Igor Gielow – Folhapress)

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