Alemanha congela certificação de gasoduto russo após avanço de Putin na Ucrânia

O primeiro-ministro da Alemanha, Olaf Scholz, congelou nesta terça-feira a certificação do gasoduto Nord Stream 2, que liga a Rússia ao país europeu e está pronto, mas sem poder operar devido à crise na Ucrânia.
O anúncio vem na esteira do reconhecimento pelo presidente da Rússia, Vladimir Putin, de duas autoproclamadas repúblicas russas étnicas e do envio de tropas para a região.
O Nord Stream 2 é o segundo ramal de um megaprojeto iniciado nos anos 2000. Duplica a capacidade de transporte de gás natural pelo mar Báltico, possibilitando à Rússia desviar o fornecimento que hoje é majoritariamente feito por meio justamente da Ucrânia e da turbulenta aliada Belarus.
Atualmente, e pelo menos até o fim de 2024, Moscou paga cerca de US$ 1,5 bilhão (R$ 7,8 bi) por ano a Kiev pelo trânsito do gás em seu território, e a entrada em operação do novo gasoduto atingiria a rival Ucrânia e atrapalharia interesses dos Estados Unidos. As obras foram concluídas em setembro do ano passado, mas sua operação foi bloqueada pela Alemanha em novembro.
“Tendo em vista os mais recentes desdobramentos, precisamos reavaliar a situação do Nord Stream 2”, afirmou Scholz em uma entrevista coletiva, acrescentando que o Ministério da Economia iria reavaliar o processo de certificação em luz das ações russas.
O premiê pediu ainda que a pasta agisse para garantir que essa certificação não ocorra neste momento. “Os respectivos departamentos do Ministério da Economia vão fazer novas avaliações da segurança do nosso fornecimento.”
Pouco tempo depois, a agência reguladora da Alemanha anunciou que não poderá dar prosseguimento no processo. “A certificação demanda uma avaliação positiva do Ministério da Economia alemão de que a segurança do fornecimento não está em risco. Isso não está mais disponível”, diz o comunicado.
Não é a primeira vez que o gasoduto vem à tona na crise ucraniana. Ao receber Scholz na Casa Branca no início do mês, o presidente Joe Biden já tinha colocado o futuro do projeto em xeque. “Se a Rússia invadir a Ucrânia, não haverá Nord Stream 2”, disse o americano.
Nada muito diferente do que havia dito o próprio premiê alemão em meados de janeiro, após encontro com o secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg. Scholz afirmou que o país estava aberta a impor sanções no caso de um ataque russo e que tudo estaria na mesa, inclusive o Nord Stream 2.
Após o anúncio desta terça, os governos americano, britânico e ucraniano disseram apreciar a decisão. A Rússia, por sua vez, minimizou seu impacto. O vice-chanceler Andrei Rudenko disse que Moscou não tem nada a temer e que “não acredita em lágrimas”, segundo divulgou a agência de notícias Tass.
O governo alemão há tempos defende que o Nord Stream 2, herança da era Merkel, era primordialmente um projeto comercial que diversifica o fornecimento de energia para a Europa -a Alemanha, maior economia do continente, depende da Rússia para garantir cerca de metade de sua necessidade energética.
Apesar da suspensão, a decisão não irá afetar o fornecimento de energia, segundo a Comissão Europeia, uma vez que o gasoduto não estava operante. O ministro da Economia alemão, Robert Habeck, também disse que o abastecimento está garantido, mas que poderia haver um aumento no preço no curto prazo, o que já ocorreu. O valor subiu 9,2% para 78,5 euros por megawatt/hora.
A medida imposta pela Alemanha deve ser a mais dura a ser adotada pela Europa nesse momento, apesar de o chefe da diplomacia europeia, Josep Borrell, ter anunciado que o pacote de sanções aprovado por unanimidade pela União Europeia vai “impactar muito” a Rússia.
O bloco decidiu nesta terça sobre a reação à iniciativa de Putin -e que, segundo Borrell, é só parte da resposta que será dada. Foram aprovadas sanções a 27 russos e entidades do país, assim como bancos e o setor de defesa, além de limitar o acesso ao mercado de capitais europeu.
Todos os membros da Duma, a Câmara baixa do Parlamento russo, também foram impactados pelas medidas, que normalmente implicam em proibições de viagens e congelamento de bens.
O xadrez para chegar às sanções esteve ligado a diferentes visões do tom do pacote, pois há membros do bloco mais próximos a Moscou que preferiam algo mais limitado. Outros queriam ver uma resposta ampla e dura, com base no que foi discutido nas últimas semanas.
A Itália, por exemplo, que depende do gás russo, defendia que as sanções não impactassem a importação de energia -Putin disse mais cedo que manterá o fornecimento para mercados mundiais-, enquanto a Lituânia argumentava que elas não podem ser simbólicas e a Polônia subiu o tom, defendendo que elas se estendessem ao presidente russo, o que Borrell já disse que está fora do pacote desta terça.
Fora do bloco, o Reino Unido, por sua vez, anunciou sanções mais cedo contra cinco bancos, e sua secretária de Relações Exteriores, Liz Truss, disse que o país está preparado para ir mais longe se a Rússia mantiver a ofensiva.
Além das sanções inócuas contra as áreas rebeldes anunciadas pelo governo de Joe Biden nos EUA -que o Japão já declarou apoiar-, nesta madrugada a Organização para Segurança e Cooperação na Europa, ente do qual a Rússia faz parte, pediu a Moscou que rescinda os decretos de reconhecimento. Isso não irá acontecer.
Uma reação militar também foi iniciada. A Hungria deve enviar tropas para sua fronteira, enquanto a Alemanha avalia deslocar mais militares para os membros da Otan que ficam no leste europeu.
A iniciativa de Scholz em meio à crise ucraniana vem ainda após uma reação considerada interna e externamente, como excessivamente retraída -reforçando, de certa forma, a imagem de tecnocrata previsível que o político tinha na campanha.
Ante a postura dúbia, no começo do mês a Alemanha foi chamada de “hipócrita” pela Letônia, Scholz, de “invisível” pela imprensa, e sua aprovação caiu 17 pontos percentuais, para 43%.
Depois de virar hashtag com a pergunta “Onde está Scholz?”, o premiê inaugurou uma conta oficial no Twitter no último dia 13 (além da pessoal), como parte de uma tentativa de virada em seu estilo. Depois de ter visitado Joe Biden, em Washington, ele foi a Kiev e Moscou em dias consecutivos, repetindo os passos que o francês Emmanuel Macron dera dias antes e dando início a uma maior atuação nessa frente. (Folhapress)

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