Acordo entre Mercosul e União Europeia amplia acesso a mercados e redefine perspectivas do agronegócio brasileiro
Por Bárbara Souza
A recente assinatura do acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia (UE) promete redesenhar a inserção internacional do agronegócio brasileiro, ao combinar oportunidades concretas de expansão com desafios estruturais relevantes para um dos principais pilares da economia nacional. O tratado, aguardado há mais de duas décadas, surge em um momento estratégico para o Brasil, que busca diversificar mercados e fortalecer sua competitividade global no setor agroexportador.
O peso do agronegócio na economia brasileira ajuda a dimensionar a importância do acordo. Em 2025, o setor respondeu por cerca de 48,5% das exportações do país, alcançando um volume recorde de US$ 169,2 bilhões em vendas externas. Grãos, carnes, açúcar, café e produtos agroindustriais lideraram os embarques, consolidando o Brasil como um dos maiores fornecedores globais de alimentos. Nesse contexto, o acordo com a União Europeia, ainda dependente de ratificação pelos parlamentos dos países envolvidos, é visto como um potencial catalisador para uma expansão mais diversificada das exportações agrícolas.
Uma das mudanças mais relevantes previstas no tratado é a redução gradual ou a eliminação de tarifas de exportação para uma série de produtos brasileiros no mercado europeu. Essa medida tende a alterar o equilíbrio competitivo em setores nos quais o Brasil já possui vantagem comparativa, como açúcar, café, sucos e carnes. No segmento de aves, por exemplo, o acordo prevê a ampliação de cotas de exportação com isenção tarifária, o que pode reduzir barreiras históricas e favorecer diretamente os exportadores brasileiros de frango e alimentos processados.
Acesso ao mercado europeu amplia oportunidades, mas exige adaptação
A maior previsibilidade comercial proporcionada pelo acordo também pode estimular investimentos ao longo das cadeias produtivas do agronegócio, incentivando modernização tecnológica, ganhos de eficiência e melhor integração logística. Estimativas da Confederação Nacional da Indústria (CNI) indicam que o tratado pode ampliar o acesso do Brasil a até 36% do mercado global de importações de bens, um avanço significativo em relação aos atuais 8%. Para o agro, isso representa a possibilidade de explorar novos nichos, especialmente em produtos de maior valor agregado.
Apesar do potencial de longo prazo, analistas apontam que os ganhos imediatos para o setor agrícola, sobretudo em commodities, tendem a ser mais moderados. A União Europeia mantém mecanismos de proteção para determinados produtos sensíveis, além de salvaguardas que podem ser acionadas caso as importações afetem a produção local. Economistas ouvidos pela imprensa destacam que o agro brasileiro continuará enfrentando exigências rigorosas relacionadas a padrões sanitários, rastreabilidade e critérios ambientais, fatores cada vez mais centrais no acesso ao mercado europeu.
Outro ponto de atenção é o tempo necessário para que o acordo produza efeitos concretos. A implementação depende de processos legislativos no Brasil, na Argentina, no Uruguai e nos países da União Europeia, cada um com cronogramas próprios. Até que as reduções tarifárias entrem em vigor, empresas e produtores rurais precisarão ajustar estratégias produtivas, logísticas e comerciais para aproveitar plenamente as oportunidades previstas no tratado.
Independentemente dos prazos, o mercado avalia que a abertura gradual do comércio com a UE pode não apenas fortalecer as relações bilaterais de longo prazo, mas também servir como referência para futuros acordos comerciais. Para o agronegócio brasileiro, o acordo Mercosul-UE sinaliza um caminho de ampliação de mercados, cujo sucesso dependerá da capacidade de adaptação produtiva, do fortalecimento institucional e da resposta a um ambiente internacional cada vez mais competitivo e exigente.
Foto: Pexels
LEIA TAMBÉM: Startups do Agro: inspiração, inovação e desafios no campo brasileiro