UMA HISTORIA DA SGB – Balanço do BNH, em inglês.

Arthur Bernstein era Redator Publicitário e usava o escritório de um amigo advogado, o José Guerra Neto, na Rua do México. Tinham uma Agência de Propaganda, a GB. Quando o Sani Sirotsky deixou a Direção Comercial da Última Hora, associou-se a eles, criando então a SGB. Sani levava a conta do Ponto Frio Joias, dada pelo seu amigo João Alfredo Monteverde que, mais na frente, lhe confiou a conta inteira. Que era a maior conta de varejo, da praça.
Nos anos 70, já na Rua do Russel, a SGB entrou no ranking das 20 maiores agências do país atendendo contas do porte do BNH – Banco Nacional de Habitação, Caderneta de Poupança, Revlon (multinacional na linha de cosméticos, criada pelo Revson), Crefisul, Júlio Bogoricin, INAN (Instituto Nacional de Alimentação e Nutrição), Brinquedos Estrela, Orcal, a famosa conta do Ponto Frio e várias outras.
Num determinado momento, o Banco Nacional de Habitação, por determinação do Governo Militar, informa a agência que o seu balanço anual (mais de 4 páginas de jornal) além de atender às leis do país – ser publicado nos principais órgãos da imprensa nacional, – teria de ser inserido, também, no New York Times. Seria uma forma de demonstrar, ao mundo, que a ditadura militar conduzia o país para a prosperidade, para o crescimento, para uma política progressista de atendimento aos anseios mais legítimos do povo: ter casa própria. Afinal de contas o BNH financiava casas com recursos da Caderneta de Poupança.
E a equipe recebe o balanço do BNH e cuida de fazer a produção do material. Naquela época, totalmente diferente desta em que vivemos – e impensável nos dias de hoje por quem nunca viveu uma agência de propaganda de antes do computador – todo o texto, incluindo, evidentemente, todos os números, tinha de ser calculado para caber numas tantas colunas, de umas tantas páginas, (no caso, 4), num determinado corpo, com um certo espacejamento. Títulos em Caixa Alta e negrita, algumas rubricas em itálico, a grande massa de texto em caixa alta e baixa, sem negrita e vai por aí afora. E tudo feito à mão.
Este cálculo de tamanho das letras, caixa alta ou caixa baixa, negrita ou não, itálico e outros recursos, era feito pelo Produtor Gráfico que marcava, com lápis, em blocos, sobre as folhas que continham as letras e os números. Depois, aquilo tudo era enviado para uma gráfica – um fornecedor – que montava todo o texto, letra por letra, formando os “paquês” dos quais, em seguida, tirava-se uma prova em papel. Alguém fazia a revisão, o material voltava para a gráfica que corrigia o que estivesse errado e tirava então algumas cópias em papel couchê. Aquela “produção gráfica” era então recortada e colada sobre um cartão Paraná, do tamanho da página do jornal. Produção colada, pronta, resolvida, fazia-se uma revisão na arte final para ver se não faltava alguma coisa, se alguma linha não teria sido colada erroneamente, se tudo estava certo conforme o texto original e às exigências estéticas da Direção de Arte. A partir daí o cliente aprovava, a agência – através do Atendimento e da Criação, também aprovava e só então o material era liberado e ia para a clicheria, onde seriam produzidos os clichês que seriam, depois, enviados aos jornais para que fossem impressos.
Feito este processo, teve-se que repetir a operação, só que agora, para a versão, em inglês. Nesta época, tínhamos na SGB uma linda secretária, loira, dona de uma enorme boa vontade, tão grande quanto a beleza dos seus olhos verdes. Ativa, participante, responsável, mas, com algumas limitações no que se refere às sinapses dos neurônios. De vez em quando, o nível cultural dela se manifestava, de forma muito clara, o que causava preocupações.
E ela coordena a revisão de todo o material do balanço, na sua versão em inglês, com uma outra colega. E depois de exaustivas horas de leituras e de conferência para se certificar que todo o texto original estava em couchê, e de forma correta (e nenhuma das duas falava inglês, então a conferência foi palavra por palavra, letra por letra), ela chega na sala do Atendimento, põe solenemente todo o material revisado sobre a mesa e pontua, de forma professoral e definitiva, sem margem para contestações:
– Gente, ó, tá tudo revisado, palavra por palavra. Duvido que alguém possa encontrar um errinho. Só tem um problema: os números não foram traduzidos. Estão todos em Português.
Cai o pano.