SEM PELICULAGEM NÃO PODE

Na década de 70, Lilly Monteverde, viúva do João Alfredo Monteverde, certamente hoje a viúva mais rica do mundo – casou-se com o Edmond Safra. Que mandou o Simon Alouan, seu fiel escudeiro, que viajava pelo mundo fazendo transações financeiras, para tocar o Ponto Frio. Simon era esperto, vivo, atento a tudo que estava à sua volta, particularmente no que se referia a finanças. Dono de temperamento difícil, complicado e explosivo acabou tendo atritos sérios com o Claudio Cohen, filho de Lilly com o primeiro marido, um argentino. Lilly e Claudio sempre tiveram uma relação complicada com Simon. E a relação de Lilly com ele piorou porque surgiu a crença, por parte da Lilly, de que Simon teria sido o responsável pela morte de Claudio, num desastre de carro. Simon foi expulso, por Lilly, do funeral do filho.
Isto é só para dar uma palinha de como era difícil se relacionar com o Simon. Certo dia, Arthur Bernstein, o B, da SGB, já referenciada aqui em coluna anterior, apresentou uma campanha de propaganda para o Ponto Frio que, do ponto de vista do cliente, teria que ir ao ar numa certa data. E não havia possibilidade da campanha ficar pronta no prazo desejado pelo cliente. Arthur propôs que deixassem a questão da data de lado e que discutissem a campanha. Aprovada, discutir-se-ia a data, os prazos etc. O cliente concorda e Arthur, entusiasmado pela qualidade da ideia, pelo “approach” (*) da campanha, pelo acabamento das peças, pela riqueza da argumentação e do envolvimento que a Criação criou para fisgar melhor o consumidor, explica o conceito, o porquê, o efeito da campanha sobre público-alvo, a abrangência e a adequação correta da linguagem usada – quer a verbal, quer a visual. Entra inclusive na concepção dos símbolos usados, no uso da semiótica, nos efeitos paralelos da comunicação. A retórica é tão bem construída que, ao chegar ao final da apresentação, o cliente aprova a campanha de estalo. Sem mudar uma vírgula.
Arthur, irradiante de alegria, mesmo sem entender bem o que teria levado o Simon Alouan a aprovar a campanha assim de prima, sem discutir um detalhe sequer, sem botar defeito em nada, propõe que se juntem as peças e que a equipe volte para a agência para começar a execução. Foi aí que o Simon volta ao assunto do prazo: – OK. Arthur. Tudo aprovado só que eu quero a campanha na rua, domingo, dia 15. (E de posse de um calendário na mão mostra que serão 15 dias, cravados, a contar daquela data). Arthur gela na espinha e explica que não pode. A Agência precisa, idealmente, de 45 dias para produzir a campanha. Na pior das, aí até já correndo alguns riscos, 30 dias, no mínimo. Em 15 dias é impraticável. E Simon resistente, afirma que precisa em 15, Arthur precisa de 45 dias, mas que pode tentar em 30 dias e a teimosia se manifesta de parte a parte até que Simon Alouan pede um detalhamento completo de todas as etapas. E Arthur então esclarece que ia falar só sobre o filme porque as outras peças, todas, poderiam ficar prontas em uma semana. Mas o filme, não. Este precisava de mais prazo. E começa a detalhar:
– Simon, então veja. Preciso de 2 dias para a Pré produção, 2 dias para o orçamento e, 3 dias para a locação dos ambientes onde o filme vai ser rodado. Depois preciso de 4 dias, no mínimo, para a filmagem. Isto se não chover. Em seguida, o material vai ser revelado em São Paulo onde será montado o copião. Minha vontade é revelar tudo em Buenos Aires, para ganhar tempo. A Líder, por ser única no Brasil, está sempre abarrotada e pode não fazer o trabalho em tempo hábil. De qualquer forma, São Paulo ou Buenos Aires, são mais 4 dias para a revelação e a montagem do copião. Vindo o copião, tem a edição, o que implica em mais 2 dias. Por garantia é melhor considerar 3. Feito isto o filme vai a São Paulo, ou Buenos Aires, onde será feita uma cópia para aprovação final. Aprovada teremos as outras cópias em 2 dias. Este é o processo mínimo para garantir a qualidade que precisamos. Ai então, Simon Alouan que acompanhou o raciocínio todo, fazendo mentalmente a conta, de cabeça, e que havia contabilizado 20 dias, pegou Arthur no contrapé. – Então Arthur, quantos dias precisa para fazer tudo isto? Você contou? Arthur, em dúvida, sentiu que devia ter cometido algum erro:
– Quantos dias deu Simon, não é o que lhe falei?
E Simon, já com ar vitorioso explica que foram calculados 20 dias e que ele toparia adiar a campanha em uma semana. Mas Arthur, espertamente, vendo que os prazos ficariam apertados demais e que poderia haver algum problema, inventa uma solução espetaculosa:
– Mas Simon, depois de tudo isto pronto, tem a peliculagem das cópias. Sem a peliculagem não tem como os filmes serem exibidos. E a peliculagem demora 10 dias.
E o cliente, não querendo passar recibo de ignorante, não ousou querer saber o que vem a ser a peliculagem. E a agência ganhou mais 10 dias para fazer o trabalho bem feito.
(*) approach – jargão muito usado na Propaganda – a forma com que o assunto é abordado.