Polarização política ou falta de outra opção?

História, sociedade e cultura

Leonardo Santana da Silva – historiador e músico.

Estamos diante de uma situação cada vez mais inusitada, em se tratando do campo político em solo tropical tupiniquim. O Brasil em seus últimos dias, vive uma intensa perversidade política polarizada, fruto de uma falta de renovação e da tão sonhada reforma política, que não tão cedo, não obstante as infinitas promessas de campanhas, nos parecem cada vez mais distante de sua concretização. Será mesmo que existem brasileiros que acreditam nessas promessas? Pessimismo sem causa de nossa parte? Não! Apenas uma pitada de subjetividade filosófica pautada em um niilismo que nos garantem uma racionalidade, ausência de demagogia e senso crítico de realidade.

Este é o cenário político em que o Brasil se constituiu há algumas décadas. Isso, sem falarmos diretamente sobre os sucessivos golpes políticos ocorridos durante o período republicano e que nunca deixaram de se fazer presente no contexto socio-histórico brasileiro – vide a própria instauração da república em 15 de novembro de 1889.

No tocante a política brasileira, encontramo-nos, sem dúvida, perante um problema histórico, cujas circunstâncias mesquinhas, sem propostas claras e evidentes de ambas facções que disputam essas eleições presidências, são retroalimentadas por inúmeros outros partidos também esvaziados de objetividades, ideias políticas e ideologias.

Esta seria de fato “A vida como ela é…” Certamente tais palavras não são de minha autoria. Todavia, encontro-me cada vez mais convicto delas. O teor das crônicas de Nelson Rodrigues, metaforicamente analisando, nunca estiveram tão atuais e em sintonia fina com a nossa velha e decadente política brasileira. Assuntos temáticos que giravam entorno de uma falta de moralidade, escândalos, desejos nada escrupulosos, adultérios e um verdadeiro cenário de prostituição geral, os mesmos se fazem presentes também em nossa política por meio das mais inescrupulosas infidelidades partidárias – apenas para citarmos um dos exemplos.

Seguramente, acreditamos na existência de uma política de ódios generalizada e igualmente polarizada. Não há como sustentar a salubridade de um país, com tamanha partidarização, representadas por tais facções que aí estão objetivando o poder. As eleições presidenciais se transformaram em discussões, cujos conteúdos, de um dos lados, se encontram focados para uma ameaça sobre uma possibilidade de nosso país retornar a uma ditadura militar, enquanto que do outro lado, num referendo sobre o que é, o que deveria ser ou o que já foi um dia o PT.

Estamos às vésperas de conhecermos oficialmente aquele que legitimamente irá governar o Brasil – ao menos teoricamente – pelos os próximos quatros anos. Esse fato não se dará ao acaso. Democraticamente, “todo poder emana do povo”. É o que nos garante o parágrafo único do Art. 1º da Constituição Federal de 1988. Mal acabara de sair das fraudas, completando apenas 30 anos, a Constituição Federal já se vê inteiramente obsoleta, de acordo com alguns desses pretensos “donos do poder”. Já ouvimos até falar que o Brasil precisaria de uma nova Constituição elaborada por “notáveis” e aprovada em plebiscito pela população, sem a eleição de uma Assembleia Constituinte, cuja presença seria um mero detalhe sem qualquer relevância ou legitimidade – quem sabe as duas coisas juntas.

Vejam só que ironia. O jogo da própria democracia coloca nas mãos a decisão sobre quem governará a nossa nação. Consciência nesse momento é igual a canja de galinha – não faz mal a ninguém. Fujamos, portanto, das armadilhas que a própria democracia pode nos reservar, caso seja exercida inadequadamente, ou se preferirem, irresponsavelmente.

Diante desse cenário político recente e um tanto nebuloso, a perversa polarização política brasileira persiste. As pesquisas políticas estão aí para não deixarmos mentir. Guardada as devidas proporções das já familiares margens de erro de 2 pontos percentuais para mais ou para menos de acordo com as próprias metodologias das pesquisas, os dois principais candidatos que hoje disputam o 2º turno das eleições presidenciais no Brasil, são exatamente os mesmos que tanto no 1º turno lideraram as pesquisas de intenções de votos, quanto ocuparam os primeiros lugares com relação aos maiores índices de rejeição.

Caros leitores, como exercício de reflexão, mais uma vez queremos revisitar as sábias palavras do mestre Nelson Rodrigues: “toda unanimidade é burra”. No fundo, no fundo, tais evidências apresentadas podem ser resumidas naquelas perguntas que sempre pairam sobre nossas cabeças nos assombrando ano após ano: polarização política ou falta de outra opção? Até quando teremos que optar por aquele que duvidosamente acreditamos ser o menos pior? Não adianta, de maneira promíscua, demagógica e leviana, cantarmos o hino nacional ou nos apropriarmos das cores verde e amarela para tentarmos demonstrar certo patriotismo. De nada adianta tais manifestações “patriotas” se não tivermos plena consciência de que o Brasil deverá ocupar um lugar de destaque, onde verdadeiramente possa estar preponderantemente acima de qualquer poder hegemônico, bandeira, credo, cor ou partidarismo político.