PERCO O CLIENTE, MAS NÃO PERCO A PIADA

Eram 3 Carlos: João Carlos Magaldi, Carlos Prósperi Netto e Carlos Maia de Souza. Todos 3, sul mineiros, de Muzambinho, Guaxupé e Lavras, respectivamente. Profundamente talentosos, já tinham passado por algumas agências até criarem, em 1963, a primeira agência, efetivamente focada na criatividade, carregada de ironia e de irreverência. Magaldi e Carlito eram redatores e o Prósperi, diretor de arte.
A história deles enriquece a nossa Propaganda e vale a pena procurar conhece-los melhor. Cada um deu uma contribuição marcante, cada um ao seu jeito, com seu estilo, com o seu toque pessoal. O Magaldi, por exemplo, além das muitas contribuições marcantes dadas à nossa Propaganda, foi Diretor da Rede Globo, criador da Central Globo de Comunicação, da campanha Mexa-se e de outras. O Prósperi, Diretor de Arte da maior competência, depois das várias agências por onde passou, viveu na Standard Propaganda, assistiu à passagem para Ovilgy & Mather e, por atender a Shell durante muitos anos, passou a figurar como o mais duradouro “homem de atendimento” da Shell.
Já o Carlito Maia que tinha o espírito irrequieto, anárquico e brilhante, foi redator de várias agências, criador de centenas de frases importantes e criativas e um dos fundadores do PT. Certa vez o Carlito afirmou que “se o PT chegar ao poder, eu me desligo dele”. E se desligou. Ele foi o criador do oPTei, do Lula lá e de dezenas de palavras de ordem do Partido dos Trabalhadores. Juntamente com o Magaldi e o Prósperi, criaram a Jovem Guarda, as modas lançadas por eles, os apelos, os “gimichs” e, inclusive o jargão “é uma brasa, mora”. Mas a história que queremos contar aqui, do Carlito Maia, é específica. Ela revela o espírito de irreverência, de liberdade de pensamento, de postura anárquica. (Não confundir, por favor, postura anárquica com bagunça, esculhambação, falta de ordem. Anárquico aqui, é no sentido clássico: anarkós – sem governo, conceito filosófico de que a humanidade deverá ser, um dia, anárquica, isto é, os homens se guiarem pelas suas consciências, não precisarem de governo.
A Magaldi, Maia & Prósperi, como falamos antes, foi a primeira agência brasileira, realmente voltada, preocupada, focada em criação, em brilho, em audácia. E em função disto ela conquistou significativas contas na época. E tinha um cliente, logo no começo da Agência, que era um fabricante de relógio, americano. E que encomendou uma campanha. E que foi feita, brilhantemente com a participação dos 3 e o Carlito Maia foi o responsável para defende-la. Agência em São Paulo, cliente no Rio e para cá vem o Carlito com aquela pasta enorme de publicitário, trazendo as várias peças da campanha para “vende-la” para o “board” da empresa. “Board” este que veio dos Estados Unidos para analisar, ver as peças e aprovar.
Sucede que os Estados Unidos, em guerra com o Vietnam do Norte, já vinham apanhando terrivelmente dos guerrilheiros norte vietnamitas, descamisados, sem arma, sem poder bélico que enfrentavam galhardamente as tropas altamente treinadas e bem armadas da América do Norte. Os guerrilheiros vietcongs infringiam derrotas humilhantes aos soldados gringos que sofriam emboscadas, farpas de bambu que fincavam nos seus pés nos pântanos, ataque de abelhas que eram aprisionadas em bolas de cera e atiradas sobre os soldados, valetas que eram abertas à noite e cobertas com bambu nas quais os soldados caiam sobre pontas de bambu espetadas no fundo e coisas do gênero.
E na véspera da apresentação da campanha, a Embaixada Americana, em Saigon, capital do Vietnam do Sul, sofreu um ataque dos guerrilheiros, infringindo uma derrota mais humilhante ainda para o colosso do norte. E Carlito quando pega o avião em São Paulo e compra o jornal, vê estampado na primeira página, a manchete: Embaixada Americana é atacada por vietcongs. Vem, no voo para o Rio lendo o jornal e vibrando de alegria pelo ato dos guerrilheiros contra o colosso do Norte. Chega no escritório do cliente, sobe o elevador, com a enorme mala cheia de leiautes e do material todo da campanha, sai no hall do andar do cliente, se dirige à recepção, é anunciado e adentra o corredor enquanto vem vindo, do lado de lá, o “board” completo do cliente. Carlito Maia quando se defronta com a turma toda, coloca a pasta numa cadeira ao lado, faz um gesto, no final da frase, conhecido de quem se deu mal.
– Vocês ontem, em Saigon heim? (top, top.)
A campanha foi recusada ali, sem sequer ser vista ou avaliada. Por estas e outras a Magaldi, Maia & Prósperi teve vida muito curta.