O que será da Primavera Antirracista?

Em meio a uma pandemia de um vírus que provoca infecções respiratórias, um homem morreu dizendo que não conseguia respirar. Mas a sua morte, surpreendentemente, nada tem a ver com o novo coronavírus. Aliás, não há nada de novo no racismo. A imagem de George Floyd sendo sufocado por um policial branco escancarou a desumanização dos corpos negros e isso teve um preço. A reação imediata de revolta por parte da população de Minneapolis causou um efeito em cascata e ecoou gritos potentes ao redor de todo o mundo. Onde isso nos levará?

É um tanto surreal, quase inacreditável, termos de debater sobre ódio racial em um momento como esse.  Deveríamos estar todos concentrados nos debates sobre saúde, principalmente a respeito de políticas públicas para combater a doença e proteger, especialmente, quem vive em situação de vulnerabilidade socioeconômica, que estão mais expostos e, adivinhem, em sua maioria são negros – mais um braço do racismo dando oi. No entanto, o debate se faz urgente. Nos EUA, em 2019, a polícia matou em torno de 250 negros. No Brasil, o número passa de 4 mil.

Minha intenção ao traçar esse paralelo com a realidade americana não é medir quem sofre mais ou comparar iniciativas do movimento negro de nenhum país, porque é evidente que a resistência não é opcional, para ambos, e não cabe cobranças. Meu objetivo é evidenciar como o racismo se adapta a realidade de cada sociedade e se apresenta de maneiras distintas. Percebam: os Estados Unidos viveram um estado de segregação racial através das “leis Jim Crow”, até 1965. O Brasil foi o último país do mundo a abolir o regime escravocrata, em 1888.

Na terra do tio Sam, separação, exclusão, estabelecida por legislação e a possibilidade de existir grupos declaradamente racistas, por exemplo. Nas terras tupiniquins, o mito da miscigenação, a tal democracia racial que não passou de uma política de Estado com o intuito de embranquecer a população. Nos EUA, a população negra representa, aproximadamente, 12% do todo. No Brasil, algo em torno dos 55%. A questão socioeconômica também se estabelece de forma distinta, como mencionado no início, a maioria dos negros brasileiros está abaixo da linha da pobreza. Enfim, dois cenários, um só inimigo: racismo estrutural e estruturado.

Não se pode classificar o racismo em escala de intensidade. Não existe racismo brando. E o futuro dessa onda antirracista depende de você, além das tendências das redes sociais. A primavera antirracista necessita durar o ano inteiro, todos os anos. E, insisto, depende de você. O movimento negro não deve ser questionado por quem não questiona o fato de os negros serem maioria nas favelas, nas cadeias e nos subempregos, enquanto nos ambientes de prestígio continuam sendo presença rara. Em qualquer lugar do mundo. Para finalizar, proponho reflexões: quantos colegas de trabalho negros você já teve? Como você pode contribuir para mudar essa realidade?

Nathalia Dantas

ndclsocial@gmail.com