Mineradoras assinam carta-compromisso para ‘inverter imagem’ após tragédia de Brumadinho

O presidente do conselho do Ibram (Instituto Brasileiro de Mineração), Wilson Brume. (Foto: Luis Ushirobira/Valor/Folhapress)

NICOLA PAMPLONA
BELO HORIZONTE, MG (FOLHAPRESS) – Sob protesto de família das vítimas da tragédia de Brumadinho (MG), as grandes mineradoras com atuação no Brasil abriram conferência do setor nesta segunda (9) com promessas de maior segurança, em um esforço para melhorar sua imagem perante a opinião pública.
As empresas assinaram carta compromisso com propostas para melhorar a segurança operacional e o relacionamento com as comunidades das regiões onde atuam, com o objetivo de “inverter a imagem”, nas palavras presidente do conselho do Ibram (Instituto Brasileiro de Mineração), Wilson Brumer.
O texto promete “profunda transformação” da indústria de mineração brasileira. “Os rompimentos de barragens colocaram em xeque a essência da atividade minerária, qual seja, a de oferecer à sociedade uma gama de recursos minerais que […] permitem o incremento da qualidade de vida.”
Com um saldo de 249 mortos e 21 desaparecidos, o rompimento de barragem da Vale em Brumadinho, em janeiro, é considerado o maior desastre ambiental brasileiro. Em 2015, o rompimento de barragem da controlada pela Vale e pela BHP Biliton em Mariana (MG) já havia deixado 19 mortos e um rastro de destruição.
Segurança e comprometimento com comunidades foram alçados ao topo da lista de prioridades do setor, tanto em discursos como em vídeo promocional mostrado na abertura –que apresentou entre os objetivos futuros a frase “planejar novos caminhos a partir de aprendizados do passado”.
“Estamos aqui para tratar do futuro da mineração. Mais do que isso, da mineração do futuro”, disse Brumer em seu discurso. “Não vamos esquecer o que aconteceu. Precisamos tirar lições para que fatos como esses jamais se repitam”, continuou.
A carta compromisso promete maior participação institucional e transparência na gestão dos riscos das barragens. Fala também em contribuição do setor no desenvolvimento de outras atividades econômicas nas cidades onde há mineração.
Segundo Brumer, a ideia é criar regulamentos e padrões para serem seguidos pelas empresas e prestar contas à sociedade sobre a evolução dos processos. “A prioridade hoje no setor é trabalhar fortemente os aspectos de segurança operacional”, afirmou o executivo.
O evento iniciado nesta segunda em Belo Horizonte é o primeiro grande encontro do setor após a tragédia de Brumadinho e reúne mineradoras e prestadores de serviços. Responsável pela organização, o Ibram tem entre seus associados a própria Vale e outras mineradoras de grande porte, como Nexa, Anglo American e Anglo Gold.
Na abertura, a organização respeitou um minuto de silêncio em homenagem às vítimas. Durante os discursos, um grupo de familiares ergueu cartazes lembrando os parentes mortos. Alguns gritos de “assassinos” foram ouvidos.
O protesto foi ignorado nos discursos. Durante a cerimônia, o Ibram homenageou com placas as entidades que colaboraram após a tragédia, como os bombeiros, a polícia e a defesa civil.
Após a cerimônia, os manifestantes espalharam fotos das vítimas pelo saguão do centro de convenções onde é realizado o evento. “Esse discurso é uma balela. Tinham que se preocupar com isso antes de matar tantas pessoas”, reclamou Cláudia Oliveira de Souza, que perdeu um filho na tragédia.
“Nunca mais vou ter um domingo igual era antes, nunca mais vou ter um dia das mães, um Natal igual era antes”, disse Maria Regina da Silva, que perdeu uma filha na tragédia. “Eu quero ver alguém preso, alguém pagar pelo que fez”, completou.
A avaliação no setor é que, além de efeitos econômicos com a suspensão de atividades após o desastre, a sucessão de tragédias comprometeu também a imagem de empresas que não enfrentaram problemas ambientais ou sociais.
Mineradoras parceiras do Ibram forçaram mudanças na gestão do instituto, que tinha a pecha de “departamento da Vale”, por ser conhecida pela atuação em defesa da mineradora brasileira.
Após uma atuação discreta nas semanas que se sucederam ao desastre, a organização passou por um processo de reestruturação, que levou ao comando Brumer e o atual presidente executivo, Flavio Ottoni Penido. Para fontes, o processo garantiu mais voz aos outros associados.
A maior aproximação com os municípios foi tema de convênio já assinado com as prefeituras de municípios mineradores em Minas Gerais. Brumer disse que o objetivo é fechar também com prefeituras de outros estados mineradores, como o Pará.
“O setor se encontrava em uma zona de conforto e o poder público estava assistindo de camarote”, disse em debate no evento o secretário de Geologia e Mineração do MME (Ministério de Minas e Energia), Alexandre Vidigal.
Ele disse que o governo vem reforçando a estrutura e a regulação e defendeu que as mineradoras têm um “problema de comunicação”, ao não conseguirem explicar à sociedade a importância da atividade.
Também presente ao evento, o ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, disse que o governo “não mede esforços” para atender aos atingidos e que 180 barragens já foram vistoriadas desde a tragédia.