MARCIO E HÉLIO RAMOS: OS GÊMEOS CRIATIVOS

Marcio (*) e Hélio Ramos. Dois craques da Redação e da Direção de Arte, Publicitárias. Eram eles os criativos e donos da Labor. A Labor era uma agência de Propaganda que atendia a Brastel. Ela foi uma importante rede de lojas de varejo, do Assis Paim. O Assis Paim era de Vassouras e, enquanto publicitário, atendeu o Ponto Frio. Foi convidado para seu Diretor Comercial e, mais na frente montou a sua rede de varejo: a Brastel – fusão da Combrás com a Telegel. Isto lá pelos anos de 60. Assis Paim aprendeu tudo com o Alfredo Monteverde: o mais importante, audacioso e empreendedor homem do varejo, do Rio criador da Globex.
A Brastel tinha se posicionado para os clientes das classes C e D. E as campanhas feitas pelos irmãos Marcio e Hélio eram, evidentemente, muito populares. Eles não tinham medo de usar expressões, temas, conceitos que fossem interpretados como bregas, cafonas, de mau gosto. O popular era a marca deles. O popular assumido. Escrachado mesmo. Um slogan da Brastel, que foi tema de campanha e usado por muito tempo foi o “Tudo a preço de banana”. Outro tema foi o “Nojento” que tinha, como modelo, o Tião Macalé (Augusto Temístocles da Silva Costa), popular comediante da época que fazia dupla com Marina Miranda, a “crioula difícil”. Enfim, era o popularesco em ação.
Muitos publicitários viam aquilo tudo com olhos de preconceito, coisa de mau gosto para povinho, campanhas apelativas, sem maiores qualidades. Mas a Brastel prosperava, vendia, abria filiais, chegando a fazer parte de um dos maiores grupos empresariais do país.
Numa certa altura dos anos 70, a Labor ganhou, dos Colunistas Publicitários, o maior prêmio da atividade, pela melhor campanha de varejo do ano. Que tinha dado resultados de venda e de imagem, criado um buchicho enorme – hoje se diria que “viralizou” – projetando mais ainda a Agência, os irmãos Ramos e o cliente.
Chega o grande dia e os dois, envolvidos no lufa-lufa da Agência, se lembram de que, às 20 horas, no máximo, teriam de estar no suntuoso Mofarrej Hotel, onde aconteceria a premiação dos Melhores do Ano: melhor isto, melhor aquilo e a Melhor Campanha de Varejo: a deles. Saem da Agência e voam em direção ao Santos Dumont. No caminho percebem que estavam em mangas de camisa. Nem sequer levavam paletó e não havia tempo para aprontos. Chegam em Sampa com um frio de 12 graus. Passam num boteco tomam uma cachaça. Antes de chegarem ao hotel, tomam outra e, no coquetel, completam o “agasalho etílico” com whisky.
Vem a solenidade, as peças da campanha são exibidas, recebem o prêmio merecido e os aplausos efusivos da classe publicitária. Os dois fazem os agradecimentos de praxe, enaltecem o mérito do cliente, por ter aprovado a ideia, sem o qual não haveria campanha e, por conseguinte, não teria premiação. Despedem-se e rumam para Congonhas com as almas lavadas pelo bom trabalho feito e pelo reconhecimento que tiveram. Um pouco para comemorar um pouco mais a premiação e, também, como forma de diminuir a friaca paulistana, tomam mais umas pingas num e noutro boteco, antes de pegarem o último voo da Ponte Aérea.
Entram no Viscount devidamente calibrados ao nível da simpatia, graças à contribuição etílica, sentam-se nas duas únicas poltronas que estavam desocupadas, bem na entrada do avião. As portas se fecham, as hélices começam a rodar e a Comissária faz o ritual de praxe: “Senhores passageiros, este é mais um voo da Ponte Aérea São Paulo – Rio, da Varig. O tempo estimado de voo, é de 1 hora e 10 minutos. Dentro de alguns minutos serviremos um lanche. Solicitamos que os cintos fiquem afivelados e as poltronas colocadas na posição vertical. O comandante Sepúlveda é quem dirige esta aeronave e, hoje, ele faz 25.000 horas de voo. Obrigado por preferirem a Varig”. O avião taxia, as turbinas são aceleradas e o equipamento levanta voo.
Marcio e Hélio, ao lado do microfone, perceberam que a Comissária não o tinha desligado. O Marcio (o mais saído dos dois), pega o microfone e faz um comunicado: “Senhores passageiros, quando um Comandante da aviação comercial brasileira faz 25.000 horas de voo, é de praxe comemorar este fato com a tripulação e com os passageiros, fazendo uma exibição da sua competência. Por isto pedimos que atem os cintos e se segurem bem porque o Comandante Sepúlveda vai fazer umas piruetas com a aeronave”. Desespero, geral, pânico, gritos de socorro. A Comissária se apressa em desligar o microfone e tirá-lo da mão do inoportuno passageiro. Depois, da cabine, passa um rádio para a base no Rio, relatando o fato e pedindo providências. Quando o avião desce no Aeroporto Santos Dumont, a Policia Federal já estava a postos para prender o engraçadinho autor da brincadeira.
(*) Marcio faleceu em junho de 2014.