História, Sociedade e Cultura

Leonardo Santana da Silva – Doutor em História e músico.

A hipocrisia da velha política mundial

A “boa” e velha política mundial, esta sim parece não ter fim. No último dia 11 de novembro, cerca de 70 líderes mundiais se reuniram em Paris para celebrarem o centenário do fim da 1ª Guerra Mundial. A Alemanha e a França assinaram no dia 11 de novembro de 1918, britanicamente às 11h, o acordo armistício de Compiègne, marcando para sempre a rendição da Alemanha e o fim do conflito. Mas com tudo isso, a pergunto que sempre me faço é a seguinte: até quando subsistirá essa velha política mundial hipócrita? Será mesmo que um dia ela terá fim?

Com relação as respostas para tais questionamentos, tenho, do mesmo modo, minhas reservas. Analisando bem a conjuntura histórica de tal episódio pavoroso, percebo que a 1ª Grande Guerra Mundial pode até terminado oficialmente. Porém, suas consequências e traumas se perpetuaram.

Apenas para uma questão de dado histórico, esta cerimônia homenageou aqueles soldados que bravamente lutaram nos diferentes combates ocorridos nesse confronto, entre 1914 e 1918, cuja estimativa foi entorno de 10 milhões de vítimas, incluindo militares e civis. Entre os presentes nessa celebração – realizada no Arco do Triunfo – estavam alguns daqueles mais poderosos do mundo: o americano Donald Trump, a alemã Angela Merkel, o russo Vladimir Putin, o turco Recep Tayyip Erdogan, além do francês Emmanuel Macron, anfitrião da “festa”.

Conforme protocolo, o mestre de cerimônias – o presidente francês Emmanuel Macron – destacou em seu discurso uma visão da França oposta do nacionalismo que a coloca enquanto uma nação generosa e portadora de valores universais. Ou seja, uma ideia, a meu ver, extremamente vaga e demagoga, sob o ponto de vista de que, segundo o próprio Macron, tal nacionalismo seria uma traição ao patriotismo, uma vez que este nacionalismo cuidaria apenas de si mesmo. Isso não seria o que a maioria dessas grandes potências mundiais vem fazendo ao longo de todo esse tempo, até mesmo antes da eclosão da 1ª Guerra Mundial?

Nos anos antecedentes a 1ª Guerra, o clima de rivalidades na Europa e a própria corrida armamentista entre as grandes potências ditavam o tom, no tocante as disputas coloniais afro-asiáticas, sem contarmos com as disputas territoriais dentro do próprio continente europeu. Dando continuidade a seu discurso, o presidente francês pediu ainda que seus colegas rejeitassem o fascínio pela retirada, pela violência e pela dominação. Ora, pelas barbas dos profetas… Será que ele é tão ingênuo assim para não perceber a significativa rentabilidade econômica que os grandes países financiadores de guerras obtêm através dessa prática? Eis aí um bom exemplo da hipocrisia dessa velha política mundial – o cinismo

E não para por aí! Segundo as principais manchetes, vimos esses líderes mundiais percorrerem a pé e debaixo de chuva, alguns poucos metros da avenida Champs Élysées para chegarem ao Arco do Triunfo, com exceção de Trump e Putin que chegaram um pouco atrasados e separadamente. Nesse caso, até posso acreditar na recíproca sinceridade entre ambos presidentes em não quererem estar juntos.

Entre inúmeras batalhas existentes, desde que o mundo é mundo, tivemos até momentos de perspectivas para uma iludida mudança. Batalhas, antes e depois da 1ª Guerra Mundial, tiveram tréguas, mas não o suficiente para deixarem de existir. Em busca de uma nova era moderna – não aqui me referindo a Idade Moderna, compreendida entre 1453 e 1789 – alguns movimentos culturais e artísticos fizeram parte daquele contexto de pré e pós-1ª Guerra Mundial.

O ballet A Sagração da Primavera, foi composta pelo russo Igor Stravinsky e demorou cerca de 30 anos para ficar pronta, estreando em 29 de maio de 1913. Hoje consagrada como uma das mais influentes músicas do início do período moderno, sua estreia causou certa estranheza e escândalo por sua característica musical dissonante e agressiva entre trechos melodiosos e calmo. Stravinsky subverte a estética musical do século XX, dando origem ao Modernismo.

Um ano e três meses depois da companhia de Ballet Russo estrear no Théâtre des Champs-Élysées tal obra, na capital francesa, a própria França, Reino Unido e o Império Russo, formariam a Tríplice Entente contra os países da Tríplice Aliança compostos pela Alemanha, Itália e Império Austro-Húngaro. Vejam só que ironia. Como uma espécie de consonância estética com o chamado modernismo, uma geração inteira se entrincheiraria. Em nome de uma nova era moderna, só que geopolítica, milhares de jovens estavam dispostos a morrer nas frentes de combate na 1ª Guerra Mundial.

Nessa história toda, o que talvez não pareça hipocrisia, são algumas das fotografias oficiais que registraram tal encontro na França. Em uma dessas imagens específicas publicadas em um jornal de grande circulação, mostra exatamente, Trump, Angela Merkel e Emmanuel Macron, com uma espécie de sorriso ironicamente falso, que mais parece com os dentes falsos de George Washington naquele apático sorriso imortalizado na nota de um dólar.

Outras duas demonstrações de certa sinceridade, partiram da Rainha Elizabeth no Cenotáfio (memorial fúnebre) de Londres, com sua expressão facial nada feliz e do pronunciamento que veio do Vaticano feito pelo próprio Papa Francisco. Embora sem ter um passado ilibado, a Igreja, através do seu representante maior advertiu que a 1ª Guerra Mundial serve de lembrança para uma severa chamada para se investir na paz. Essa página histórica é um rigoroso apelo para rejeição a cultura da guerra, buscando-se todos os meios legítimos possíveis para pôr fim aos conflitos que ainda persistem ao redor do mundo.

Como bem descreve a canção Solitude de Djavan – o “amor em queda, mesmo tal moeda perde cotação […]. Guerra vende armas, mantém cargos, destrói sonhos, tudo de uma vez, sensatez não tem vez. Vidas fardos, meros dados, incontáveis casos de desamor, quanta dor, muita dor […]”. Nesse cenário de hipocrisias da velha política mundial, o que nos restam mesmo de verdade são as ativistas de topless que chegaram até interromper a comitiva de Donald Trump, protestando contra a presença dos chefes de Estado, acusando-os de verdadeiros ditadores que não respeitam os direitos humanos em seus respectivos países.