História, Sociedade e Cultura

Leonardo Santana da Silva

Doutor em História e músico.

Trinta anos sem Aracy.

O subúrbio carioca sempre nos revela grandes surpresas. Nascida e crescida no Encantado, Aracy de Almeida foi mais uma dessas importantes cantoras que a nossa música brasileira teve. Em sua trajetória, conviveu com Noel Rosa, tornando-se a sua principal intérprete e participou como jurada do programa Show de Calouros do lendário Silvio Santos. Igualmente peculiar e versátil, Aracy era conhecida, era conhecida por no mínimo três apelidos diferentes: “Dama da Central – por viajar muito de trem; “A Dama do Encantado” e “O Samba em pessoa”.

O Brasil não cuida bem de seus vivos, o que diremos dos seus mortos! Ingenuidade de nossa parte acharmos que importantes homenagens seriam feitas à Aracy no aniversário de trinta anos de seu falecimento, quando não se houve homenagens significativas a altura dessa artista em âmbito nacional no ano de seu centenário – lamentável.

O sonho de Aracy sempre foi tornar-se cantora de rádio, desde sua juventude, quando ainda cantava no coro de uma igreja batista da qual seu irmão era pastor. Apesar de sua baixa estatura – detalhe que não lhe atrapalharia em nada – Aracy de Almeida no palco, sob o domínio de um microfone em suas mãos, era uma gigante.

Aracy foi uma das maiores! Sua versatilidade de repertório, somada a peculiaridade de uma voz chorosa nasalada, certamente lhe renderiam o brado de “Aracy é a melhor!”, creio ter sido este o clamor feito pelo coro dos auditórios pelos quais passou nos anos 50 – embora nesse momento as maiores cantoras já fossem Emilinha Borba e Marlene.

Mesmo não tendo conquistado o título de Rainha do Rádio – como foi no caso das falsas rivais Marlene e Emilinha – Aracy de Almeida foi considerada a Rainha dos Parangolés, homenagens feitas por Luiz Flávio Alcofra e Marcos Sacramento em um álbum musical dedicado a ela. Aracy de Almeida foi, de longe, a melhor e maior intérprete do genial Noel Rosa. Como ela bem já afirmaria, “cada um cantava por onde podia”, em referência às suas interpretações das canções musicais feitas pelo nariz.

De temperamento forte, sem muita papas na língua, Aracy falava o que pensava. Contra-atacava, na mesma hora, aquilo que não lhe agradara a seus ouvidos. Lembro-me de um episódio específico, narrado pelo fabuloso músico Henrique Cazes, em um de seus livros denominado de Suíte gargalhadas – histórias engraçadas a respeito de personalidades musicais com as quais Cazes conviveu ao longo de 25 anos – em que Aracy de Almeida, ao se apresentar em uma casa noturna de São Paulo, nos anos 60, soltou uma de suas pérolas, após duas “peruas”, que estavam sentadas a uma mesa muito próxima do palco, não paravam de conversar. Num determinado momento, Aracy começou a cantar outra música, provavelmente com uma potência de sonoridade mais forte, e as senhorazinhas passaram a falar mais alto ainda. Até aí, não foi o grande problema. A grande questão foi quando, de repente, uma delas exclamou: “Nossa! Como a Aracy está velha!!”. Aí não prestou. Imediatamente veio a resposta: “Eu estou velha, mas sou a Aracy de Almeida. E você quem é, sua filha…”, exclamando um palavrão! Saiu do palco aplaudida, voltando meia hora depois. Nessa altura a plateia em absoluto silêncio e sem obviamente a presença das duas mulheres.

Aracy era uma pessoa simples e sem ataques de estrelismo – diziam os que conviveram diretamente com ela. Contudo, como se pode ver, em seu vocabulário não faltavam gírias e palavrões. Essa era a marca registrada de sua personalidade, que se transformou em uma espécie de caricatura, sobretudo quando passou a desempenhar mais a função de humorista e jurada nos programas de calouros na televisão. Quem não se lembra dela, ao lado de Pedro de Lara – o comediante mais carrancudo que a televisão já teve – no programa de Silvio Santos?

Uma figura! Sem menor timidez, era assim que Aracy de Almeida se auto definia. Dotada de uma poderosa e estilosa voz – que se tornou mais grave com o passar dos anos – tinha um timbre diferenciado e nunca desafinava. Suas características bem peculiares da nossa música brasileira, a fez uma das melhores interpretes de sambas mais melodiosos e chorosos, como os de Noel Rosa, que ficaram eternizados em sua voz.

Eclética na personalidade, Aracy também foi na arte. Com inesquecíveis interpretações, principalmente de forma melancólica, gravou centenas de discos de 78 rotações e uma outra dezena de Long Plays. Além de Noel Rosa, cantou e conviveu com outros ícones de nossa música, daqueles tempos memoráveis que não voltam mais. Em seu repertório tinha Cartola, Zé da Zilda, Carlos Cachaça, Ciro de Sousa e Babaú da Mangueira, sendo estes dois últimos responsáveis pela autoria de seu maior sucesso – a canção Tenha Pena de Mim.

Para além de suas próprias queixas a respeito de ter que carregar o estigma de ser a cantora de Noel Rosa – “arrastando consigo aquele defunto para o resto da vida” – Aracy de Almeida emplacou seu maior sucesso, em 1937, quando ainda era integrante da cobiçadíssima Rádio Nacional. Fez parte também do rol da fama de Aracy, músicos extraordinários, como, por exemplo, o violonista Dilermando Reis e os lendários Benedito Lacerda e Pixinguinha.

Aracy de Almeida nos deixou em 20/06/1988, mas sempre estará viva desde o dia em que nasceu – 19/08/1914. Sua voz jamais morrerá, sua memória também não. Graças as suas antológicas gravações podemos comemorar seu nascimento, resistir ao tempo, penetrar a eternidade a fim de comemorarmos sua imortalidade. Viva Aracy! Sobre aplausos e gritos, a melhor forma mesmo de se ouvir Aracy de Almeida é fazendo silêncio em seu devido respeito e total reverência.