História, Sociedade e Cultura

Leonardo Santana da Silva – Doutor em História e músico.

 

A Casa das Primas…

Parece que o mar de lama na política brasileira não tem fim. Em uma operação da Polícia Federal intitulada de Furna da Onça – uma espécie de desdobramento da Lava Jato – demonstrou, a partir de escutas telefônicas, a ação criminosa de parlamentares em suas negociações em que nada tinham a ver com o verdadeiro exercício do trabalho de um parlamentar. Isso, se caso acreditamos que a corriqueira prática de compras de votos não é algo legítimo. Entre os presos, por consequência de tal operação, dez são deputados estaduais do Rio de Janeiro.

Nesse vai-e-vem politiques, de acordo com conversas alheias, a Assembleia Legislativa do Rio (ALERJ) se resumiu em um lugar de encontros e desencontros (des) amorosos, afetuosamente definida como a “Casa das Primas” – uma espécie de gíria popular para ser referir a um prostíbulo, bordel ou se preferirem a famosa balbúrdia casa-da-mãe-joana, que pode até ser barulhenta e confusa, mas desorganizada com relação aos seus esquemões, nem tanto.

Historicamente, o local onde se encontra situado o Palácio Tiradentes, tem sua importância desde os tempos do Brasil Colonial. Grande parte da memória política brasileira pertence a este cenário arquitetônico. Inaugurado em 1640, o primeiro edifício ali construído abrigava os três vereadores eleitos por voto indireto para um mandato de um ano. Suas funções eram justamente as de cuidar da cidade e das suas finanças.

O Palácio Tiradentes possuía um cofre chamado “burra” – daí a expressão “burra cheia de dinheiro” – que somente poderia ser aberto por meio de três chaves que ficavam sob a guarda desses três vereadores, cada qual responsável por uma chave. Sua estrutura organizacional se dividia em dois pavimentos: embaixo funcionava a Cadeia Velha e na parte superior onde trabalhavam vereadores. A extinta Cadeia Velha foi o local que abrigou, por três anos, o alferes Joaquim José da Silva Xavier, até ser enforcado em 21 de abril de 1792.

Com a vinda da família real portuguesa para o Brasil em 1808 – fugindo da invasão napoleônica – o Parlamento, que já neste momento se encontrava com um maior número de representantes, acabou sendo deslocado para outro prédio, cedendo lugar para os empregados da corte, enquanto que a Coroa portuguesa se instalava no Paço Imperial.

Ao retornar suas funções originais – a de Cadeia Velha e Câmara Imperial – este Palácio protagonizou decisivos momentos históricos memoráveis, como, por exemplo, a aprovação da Lei Áurea no ano de 1888. A Cadeia Velha foi demolida em 1922. Em 06 de maio de 1926, o Palácio Tiradentes, já oficialmente com este nome, foi inaugurado com a função de abrigar a Câmara Federal.

Entre 1926 e 1960 Câmara Federal funcionou no Palácio Tiradentes. Devido sua importância política, todos os presidentes desse período – de Washington Luiz a Juscelino Kubitscheck – tomaram suas respectivas posses neste local. Entre 1937 e 1945, durante o Estado Novo Varguista, o Parlamento foi fechado e o Palácio Tiradentes passou a abrigar o Ministério da Justiça e o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), órgão de censura do regime. Quando a capital federal foi transferida do Rio para Brasília em 1960, o Palácio Tiradentes se torna Assembleia Legislativa do Estado da Guanabara (ALEG), transformando-se em Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (ALERJ), quinze anos depois com a fusão dos estados da Guanabara e do Rio de Janeiro.

Levando em consideração a historicidade do lugar e da própria prostituição enquanto uma das profissões mais antigas do mundo, as tais “primas” que delas faziam parte, até que se prove o contrário, ganhavam seu sustento honestamente. Agora, em se tratando da “Casa das Primas” que se instaurou dentro do histórico Palácio Tiradentes, bem no coração do centro histórico do Rio de Janeiro, já não ousaria dizer o mesmo. Será que tal afirmação análoga entre a “Casa das Primas” e a Assembleia Legislativa não teria certo fundo de razão?

Devido as decadentes circunstâncias registradas nos diferentes noticiários, a nossa Assembleia Legislativa não só se assemelharia a dita “Casa das Primas”, como também ao famoso Bataclan, bordel construído em 1923 na cidade baiana de Ilhéus e imortalizado na clássica obra Gabriela, cravo e canela de Jorge Amado; a tão bem conhecida Casa da Luz Vermelha – onde Zuleika Cinderela era quem mandava – também eternizada na obra Tieta de Jorge Amado. E até mesmo na célebre Casa dos Budas Ditosos, com toda sua luxúria, de João Ubaldo Ribeiro.

Talvez essa Casa Legislativa, que já foi tantas coisas um dia, acabou de fato se transformando em um propício antro, só que dessa vez, quem sabe, menos legítimo e digno do que todas essas casas juntas citadas, inclusive aquela que modernamente apelidou-se de Casa das Primas…