História, Sociedade e Cultura

Leonardo Santana da Silva – Doutor em História e músico.

 

 Etimologia do termo, ou a moda do momento

Talvez, nesses últimos meses, nunca se tanto ouviu falar em uma expressão que viralizou pelos quatros cantos do nosso globo terrestre – a famosa Fake News. Duvido que alguém antenado com o mundo digital, cercado de informações reunidas em apenas um click e na palma das mãos desconheça tal expressão. O termo é até conhecido, mas seu conteúdo nem tanto – o que é perigoso caso não façamos os filtros necessários.

Etimologicamente, desconhecemos o processo de evolução histórica desse termo da moda. A etimologia estuda a origem e a evolução das palavras, explicando seus significados através da análise dos elementos que as constituem. Ousaríamos dizer que o estudo da composição dos vocábulos, ora em questão, e das regras de sua própria evolução histórica, ainda merecem cuidadosa pesquisa e igualmente reflexão.

Com relação a tradução dessa expressão, não se têm dúvidas. Do inglês para o português, Fake News significa notícias falsas. Seu propósito também é cristalino: manipular pessoas, sensacionalismo barato e lucro. Nesse jogo vale tudo. O falso pode ser tornar verdadeiro e assim vice-versa. Rapidamente as inverdades noticiadas atingem inúmeras pessoas, causando excessivos estragos morais e financeiros.

Tornando-se praticamente um jargão jornalístico, perigosamente, aquilo que se definiria enquanto fenômeno de mídia social, ligeiramente se transforma em sinônimo de difamação, evoluindo para um total estágio de desinformação.

As informações que temos, no tocante a historicidade do termo, é que as Fake News surgiriam em meados do ano de 2016. Uma avalanche de histórias fertilmente inventadas, nasceriam na pacata cidadezinha de Veles (Macedônia), localizada no leste europeu. Cerca de 140 sites de conteúdos falsos foram constatados um pouco antes das eleições americanas.

A política americana não era o seu principal foco. A campanha de Donald Trump sim. Era um cenário perfeito para a produção fictícia de inúmeras notícias. As Fake News produzidas em Veles, geraram retorno financeiro através da publicidade online e das redes sociais. Por outro lado, tenho minhas dúvidas. Até que ponto algumas dessas informações sobre Trump não seriam verdades? Ainda hoje não sei se Trump seria, ele próprio, um exemplo de Fake News.

Nessa conjuntura de certezas e incertezas, Trump se apropriou do termo para se defender das notícias negativas sobre si mesmo. A partir daí, o uso e as menções específicas a Fake News aumentariam mais de 350% no mundo inteiro. Em um levantamento feito pela BBC de Londres, o termo Fake News aparece mais de 5 milhões de vezes na seção de notícias do Google, chegando a ser utilizado 2 milhões de vezes no Twitter em apenas um único mês.

Os perigos e impactos das Fake News em nossa sociedade são reais. Num contexto em que as redes sociais se tornam cada vez mais o principal veículo de informação, resta-nos distinguirmos o Fake do Fato. Elas não são apenas armas para denigrir pessoas públicas. Aliás, em certos casos, nem precisaria de tal artifício.

Devemos igualmente ter a preocupação com os impactos e prejuízos sociais que podemos sofrer, a partir dessas falsas notícias. Quem não se lembra do caso ocorrido na cidade de São Paulo em 2014, referente a uma mulher acusada de sequestro e assassinato de crianças para praticar bruxaria. Tal boato teve um desfecho trágico – o espancamento dela até morte.

Para além do termo e da disseminação peçonhenta das Fake News, o tema ganha repercussão geral, obtendo até menção em dicionário britânico por ser eleita a palavra do ano. Não é apenas no contexto internacional que o termo ganha fôlego. A abrangência de sua discussão é um propício candidato aos temas de redação de diferentes concursos nos mais diversos níveis de formação – fica aqui a dica.

O mundo digital deve ser instrumento educacional manejado por qualquer área, buscando fortalecer nossa liberdade de expressão democraticamente e responsável. É necessária a criação de políticas públicas para conscientização sobre o inadequado compartilhamento de falsas informações, como também punições para os autores de Fake News. Afinal de contas, em se tratando de Fake News, não caberia o emprego do pensamento Maya defendido pelo hinduísmo.

O conceito de tal pensamento filosófico, grosso modo, cria mecanismos ilusórios para explicar o desconhecido. Nessa busca, com base no medo, a apreensão inconsistente diante do desconhecido acaba se tornado uma realidade – nesse caso a ilusão é Maya. Nos episódios envolvendo as Fake News, não. Portanto, a produção de seus falsos conteúdos deve ser tratada sim como crime, uma vez que incorremos todos no risco de nos contaminarmos por causa dessa “necessidade” obstinada em se disseminar inverdades exacerbadas.