História, Sociedade e Cultura

Leonardo Santana da Silva – Doutor em História e músico.

Consciência é para todos!

 

O Dia da Consciência Negra é uma data celebrada no Brasil, no dia 20 de novembro. Esta data, na verdade, é uma manifestação, cujo objetivo é de se refletir sobre a questão da importância socio-histórica, no que diz respeito a condição do negro em nossa sociedade brasileira. É uma pena que nem todos tenham tal sensibilidade, consciência e até mesmo conhecimento, tanto dos fatos históricos, quanto da própria data em questão. Perguntas do tipo: “dia 20 de novembro é feriado de que mesmo hein?”, são as que mais ouvimos nas vésperas de tal feriado.

Popularmente também conhecido como “Dia de Zumbi”, o dia 20 de novembro foi escolhido como Dia da Consciência Negra, justamente como forma de homenagem a Zumbi dos Palmares, devido ao seu assassinato em 1695. Considerado herói nacional, Zumbi foi líder do Quilombo dos Palmares, localizado na Serra da Barriga, na então Capitania de Pernambuco, região hoje pertencente ao município de União dos Palmares, no estado brasileiro de Alagoas, no período colonial brasileiro.

De origem etimológica bantu – um importante tronco linguístico do Níger-Congo, língua falada pela maioria das populações em África – a palavra quilombo refere-se basicamente aos acampamentos de guerreiros na mata. Ou seja, um tipo de povoamento fortificado por negros escravizados e que conseguiram fugir do cativeiro, dotado de uma hierarquia e organização interna. Nesse sentido, os habitantes que compunham o Quilombo dos Palmares sobreviviam da caça, pesca, agricultura e produção de artesanatos, o que gerava uma economia razoavelmente significante na região do quilombo.

No entanto, Palmares não era apenas um mero lugar de refúgio dos negros escravizados fugitivos desse sistema opressor. Este, sem dúvida, era um lugar, sobretudo de resistência, consciência e de permanente luta pela própria liberdade definitiva daquela condição de escravizados. Esta resistência negra contra a escravidão transatlântica entre o continente africano e o Brasil, certamente começaria desde o primeiro navio negreiro aportado em nosso país, no momento em que o primeiro africano pisou em nosso território nacional.

Portanto, a equivocada visão de uma passividade com relação aos africanos e seus descendentes escravizados não pode ser vista como uma verdade. Temos diferentes exemplos que ilustram estas resistências negra: fugas em massa, abortos em massa, lutas armadas e Revoltas, como as dos Malês, ocorrida na Bahia em 1835 e envolviam negros islâmicos perseguidos por sua cor e religião, que exerciam atividades livres, tais como alfaiates, pequenos comerciantes, artesãos e carpinteiros. Zumbi foi herdeiro direto de outro guerreiro, símbolo dessa resistência: Ganga Zumba, primeiro rei de Palmares. Filho de uma princesa congolesa, Ganga Zumba, além de antecessor foi tio de Zumbi.

Mais do que merecida e acertada a escolha do dia 20 de novembro para se comemorar o Dia da Consciência Negra, todos os esforços, a partir de dispositivo de lei, aos poucos o país vai avançando nessa questão. Esse projeto que se iniciou no ano de 2003 com a Lei 10.639, incluiu o Dia Nacional da Consciência Negra no calendário escolar, tornando também obrigatório o ensino sobre diversas áreas da História e cultura Afro-Brasileira. No entanto, somente no governo de Dilma Rousseff, através da Lei nº 12.519, de 10 de novembro de 2011, que a data foi oficializada. Embora fosse criado tal data comemorativa, enquanto momento histórico, reflexivo e de conscientização para a importância do reconhecimento afro-brasileiro na constituição e na construção de nossa sociedade, 20 de novembro não é um feriado nacional.

Em minha concepção, 20 de novembro deveria ser sim um dia nacional. Não apenas nele deveria se discutir consciência social e étnica. Porém é um tributo a memória brasileira, não apenas negra, e sim de todos nós. Temáticas tais como luta dos negros no Brasil, cultura negra brasileira, o negro na sociedade nacional, inserção do negro no mercado de trabalho, discriminação, identificação de etnias, intolerância religiosa, racismo, discriminação, entre outras pautas, é de responsabilidade de toda sociedade brasileira.

Não devemos esquecer que foi a mão de obra negra escravizada que em grande medida construiu culturalmente e economicamente esse nosso país. Cerca de 350 anos de escravidão foi o principal pilar de sustentação de dois principais períodos históricos brasileiros: o Colonial e o Imperial. Não estou negando aqui sua importância posterior a abolição. Apenas destacando o período hegemônico escravista.

Seja como for, não obstante o dia escolhido oficialmente para ser decretado o Dia da Consciência Negra, conforme já escrevi certa vez em um artigo acadêmico, este marco histórico é sinônimo de um avanço étnico em que o Brasil reconhece oficialmente que seu nascimento é fruto de encontros das culturas e das civilizações que o torna, por excelência, um país de diversidade. Afinal, consciência é para todos!