História, Sociedade e Cultura

Leonardo Santana da Silva – Doutor em História e músico.

13 de maio

 

“Está extinta a escravidão no Brasil. Desde ontem, 13 de maio de 1888, entramos para a comunhão dos povos livres. Está apagada a nódoa da nossa pátria. Já não fazemos exceção no mundo. Por uma série de circunstâncias felizes fizemos em uma semana uma lei que em outros países levaria nos. Fizemos sem demora e sem uma gota de sangue. (…) Para o grande resultado de ontem concorreram todas as classes da comunhão social, todos os partidos, todos os centros de atividade intelectual, moral, social do país. A glória mais pura da abolição ficará de certo pertencendo ao movimento abolicionista, cuja história não é este o momento de escrever, mas que libertou províncias sem lei, converteu ambos os partidos à sua ideia, deu homens de Estado a ambos eles e nunca de outra coisa se preocupou senão dos escravos, inundando de luz a consciência nacional.(…) Logo que se publicou a notícia da assinatura do decreto, as bandas de música estacionadas em frente ao palácio executaram o hino nacional, e as manifestações festivas mais se acentuaram prolongando-se até a noite. O entusiasmo popular cresceu e avigorou-se rapidamente, e a instâncias do povo Sua Alteza a Princesa Imperial assomou a uma das janelas do palácio, em meio de ruídos e unânime saudação de mais de 10.000 pessoas que enchiam a praça D. Pedro II. (…)” (transcrição ipsis litteris). (O Paiz, 14 de maio de 1888).

Reconhecemos todos, sem exceção, o quanto é árdua a tarefa do historiador. O documento pode até ser essencial ao historiador, aspecto condicional indiscutível. Todavia, este mesmo documento que é utilizado como principal forma de fontes históricas, por si mesma, jamais poderá constituir a História.

O historiador nunca deve em si, procurar incessantemente e sem qualquer tipo de problematização, uma suposta verdade dos fatos contidos nos documentos. Ao contrário disso, o historiador precisa sim é de construir as verdades dos fatos na medida em que vai explorando heuristicamente os dados desses documentos. Sem queremos mitificar ou até mesmo mitigar, tanto a importância dos documentos, assim como o próprio ofício desempenhado pelo historiador, o fato é que ambos representam uma parte desta realidade.

Neste propósito, a tarefa do historiador é o da reconstituição do passado, o mais fielmente possível, sem perda da lucidez ou esquecimento de que seu papel sempre será o de intermediário entre o contexto histórico que está sendo retratado, o documento investigado e o próprio período atual que este historiador se encontra inserido. É a história sendo sempre construída a partir de um olhar crítico e do tempo presente.

A escravidão e o abolicionismo são temas recorrentes e bastante debatidos na historiografia brasileira. Quais seriam os motivos que explicariam o porquê deste interesse pela historiografia brasileira? A nosso ver, o fato que ocorre é que a questão negra tem sua importância justamente porque sempre esteve e sempre estará presente em nossa cultura, em nossa economia, em nossa pele, em nossa vida, em nossa sociedade, enfim, em nossa história, sobretudo, em se tratando da história sociocultural brasileira. Nesse sentido, a tensão entre o regime escravista e o processo abolicionista perpassa por um terceiro ponto que é comum entre si e, por este motivo, o escravo, a escravidão e o processo abolicionista sempre merecem e merecerão o interesse especial dos pesquisadores que abordam estes temas em seus objetos de estudo.

Seja do ponto de vista econômico, cultural, social ou político, os africanos escravizados, assim como a população afro-brasileira de um modo geral, podem ser considerados os próprios motivos que despertam tanto interesse entre os profissionais das mais diversas áreas das ciências humanas, como sendo ele (o negro) o ponto central dos trabalhos de pesquisas sobre os temas no tocante a abolição e escravidão. Sendo assim, o interesse especial dos objetos de estudos relacionados às tais temáticas – abolição e escravidão – incorre na questão do negro fazendo parte nos diferentes espaços cultural, político e socioeconômico da sociedade brasileira. Ou seja, é o negro retratado e analisado na lavoura, na rua, na casa, na senzala, no quilombo, nas minas, nas revoltas, nas lideranças, na política, na música e em muitas outras atividades.

Será que a abolição da escravidão cessara o problema do preconceito e da discriminação tão nitidamente acentuada dentro do contexto sócio-histórico brasileiro? Através de teorias racistas-cientificistas, em um determinado momento, “confirmar-se-ia” a “incapacidade”, o “primitivismo” e a “inferioridade” étnica e cultural de uma sociedade que contribuiu significativamente para formação identitária desse lugar chamado Brasil. Quanta contradição, não? Trata-se, portanto, de apenas relembrarmos que foi esse perverso regime escravista – durante o período colonial e imperial – que permitiu a construção socioeconômica desse país por cerca de 350 anos de sua vigência.

Ainda que tardiamente, sob diferentes tipos de pressões, dais quais defendiam de fato seus próprios interesses – fim do tráfico escravo transatlântico em 1850; leis emancipacionistas gradualistas, tais como, Lei do ventre Livre de 1871 e do Sexagenário de 1885 – surge também a resistência advinda dos próprios escravos, onde se praticou  fugas em massa, revoltas, levantes, abortos em massa e até suicídios em massa contra o opressor regime escravista. De lamento em lamento, de agonia em agonia, após a passagem de infinitas noites e alvorecer de incontáveis dias a tão sonhada liberdade nascia. Sem dúvida, o sangue escravo corria nos diferentes tipos de instrumentos de torturas para que um dia pudesse ter fim essa tirania. Viva ao 13 de maio e a todos aqueles que intensamente lutaram para que essa data pudesse se tornar uma realidade!