Falas de Paulo Guedes ameaçam setor econômico

Foto: FABIO RODRIGUES POZZEBOM

As recentes declarações polêmicas do ministro da Economia, Paulo Guedes, irritaram a equipe do presidente Jair Bolsonaro e líderes de centro do Congresso. A avaliação é que as falas geram um ambiente de tensão e tumultuam a tramitação de reformas.
Para assessores palacianos, as declarações atingem parcela do eleitorado de Bolsonaro e podem contribuir para aumentar na população a resistência à pauta econômica, uma vez que Guedes é o fiador do projeto liberal do governo.
Entre as medidas a serem debatidas por deputados e senadores -e de interesse do governo- estão as novas regras tributárias e a reforma administrativa. As mudanças no plano de carreiras dos servidores públicos ainda nem foram apresentadas pelo governo. Bolsonaro disse que libera o texto na próxima semana.
O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), trabalha para instalar a comissão da reforma tributária também na semana que vem.
Até lá, duas falas públicas do ministro já acenderam o alerta de assessores do presidente.
Guedes disse na quarta-feira passada que, com o dólar baixo, empre gadas domésticas viajavam à Disney. “Uma festa danada”, disse, em Brasília. Segundo ele, o dólar um pouco mais alto é bom para todo o mundo.
O ministro também chamou servidores de parasitas na semana passada, em evento no Rio de Janeiro. A declaração provocou, em ano de eleições municipais, a ira do funcionalismo -categoria com forte lobby no Congresso.
Segundo interlocutores de Bolsonaro, as gafes dificultam o diálogo com o Congresso, uma vez que despertaram a contrariedade de parlamentares. O governo já enfrenta problemas de articulação no Congresso e, segundo interlocutores de Bolsonaro, as gafes do ministro dificultam ainda mais o diálogo porque passaram a despertar contrariedade de parlamentares.
Deputados e senadores dizem que o ministro dá munição à oposição e a táticas de obstrução de votações. Isso complica ainda mais a aprovação das reformas.
Entre as críticas que recebeu de líderes de partidos de centro, Guedes foi chamado de elitista e de promover separação de classes, em contraponto à própria mensagem que o Planalto enviou ao Congresso na abertura do ano legislativo de que quer combater a desigualdade de renda.
“Este é o momento de ter declarações que ajudem o ambiente de aprovação das reformas de que o Brasil precisa”, diz o líder da maioria na Câmara, o deputado Aguinaldo Ribeiro (PP-PB), relator da reforma tributária na Casa.
Deputados dizem que ainda não há como mensurar o nível de pressão que eles vão receber da população contra as reformas porque não há propostas consolidadas. Os textos não começaram a tramitar.
“Quando negocio com um ministro e as teses que defendo são convergentes, é mais fácil que negociar com um ministro de cujas teses eu discordo. Ele dificulta a negociação com o governo”, diz o líder do Solidariedade, Zé Silva (MG).
Diante das críticas, Bolsonaro buscou se descolar dos episódios protagonizados pelo ministro. Na quinta -feira passada, disse que “o dólar estava um pouquinho alto” e, questionado sobre a frase de Guedes a respeito das empregadas domésticas, respondeu: “Pergunta para quem falou isso. Eu respondo pelos meus atos”.

.