Ex-alunos de direito da USP pagam reforma e bolsas

Reprodução/USP Imagens

ANGELA PINHO
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Em tempos de recursos escassos para universidades, é comum se ouvir que falta no Brasil cultura de colaboração dos ex-alunos. Na tradicional Faculdade de Direito da USP, isso começa a mudar.
Egressos da mais prestigiada instituição de ensino jurídico do país, no Largo São Francisco (centro de São Paulo), estão à frente de iniciativas que incluem a restauração da fachada, a reforma de salas de aula e o pagamento de bolsas para estudantes carentes.
As ações envolvem de recém-formados a octogenários, de advogados em início de carreira ao presidente do Supremo Tribunal Federal.
A mobilização começou em 2018, quando o professor Floriano de Azevedo Marques Neto assumiu a direção. Uma de suas propostas era trazer para perto os antigos estudantes.
Criada em 1827, a São Francisco, como é chamada, sofre com problemas de infraestrutura, agravados por anos de aperto orçamentário na USP.
Entre os egressos da instituição que atenderam ao chamado do diretor estão os advogados Pedro Guilherme de Souza e Kleber Luiz Zanchim.
Sócios e integrantes de uma entidade que atuou em projetos de urbanismo no centro, a Associação Trabalhar, eles propuseram angariar recursos para cuidar da fachada, instalar câmeras de segurança e melhorar a internet.
Aprovaram no fim de 2018 um projeto para financiamento pela Lei Rouanet e, em alguns meses, angariaram R$ 75 mil de 70 ex-alunos da turma formada em 2004. O pai de Pedro, o atuário aposentado Francisco Pereira de Souza, contribuiu com R$ 20 mil. Um cliente, Tiago Pessôa, diretor do banco Morgan Stanley, aportou mais R$ 50 mil.
Ao menos R$ 85 mil ficarão por conta de Pedro, Kleber e seus dois sócios no escritório.
Na tramitação da Lei Rouanet, a dupla diz ter encontrado um labirinto burocrático, com exigências não previstas e turvas. Isso não impediu, porém, o início dos trabalhos na fachada. Com custo maior, a melhoria da estrutura de internet vai esperar, mas ainda é possível custear as câmeras.
Para fechar a conta, eles correm para obter até o próximo dia 21 mais R$ 100 mil (interessados devem escrever para sanfran@trabalhar.org.br).
Ambos dizem ver o trabalho pela faculdade como uma retribuição necessária. “É um sentimento moral”, diz Pedro. “Estudei sete anos lá, contando com o mestrado, e nunca paguei R$ 1 para ter a educação que me permite hoje sustentar a minha família.”
O discurso ecoa entre ex-alunos que colaboram, como o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Dias Toffoli. “A faculdade é como uma segunda família”, diz. “O retorno é o mínimo que podemos fazer, ainda mais em momento em que o Estado passa por dificuldades financeiras.”
Com mais de cem colegas da turma de 1990, ele apoia a reforma de uma sala de aula.
Outro grupo de ex-alunos, com cerca de 50 integrantes, mobilizou-se para reformar a sala do estudante. “Ali eram realizados debates, eleições do centro acadêmico, assembleias. Tenho muitas lembranças”, diz o advogado Sérgio Renault, da turma de 1981, que participa do financiamento.
Ele conta que uma das exigências do grupo foi que os atuais estudantes concordassem com a reforma. Com resposta positiva, impuseram como condição que participassem da coordenação da obra, o que também ocorreu.
A precaução evitou repetir problemas do passado. Em 2010, após protestos de professores e alunos, a faculdade tirou o nome dado a duas salas após doações das famílias dos homenageados.
As atuais contribuições, segundo o diretor, seguem a regulamentação da USP. Os financiadores são agradecidos em placa que fica na faculdade pelo período de cinco anos.
A contribuição transcende a estrutura. Alinhados à realidade recente da instituição, que adota ações afirmativas, outro grupo, de mais de cem egressos, custeia com pequenas doações individuais bolsas de auxílio de R$ 600 mensais para alunos carentes. O valor ajuda em despesas de moradia, transporte e alimentação.
Para Pedro Henrique Rodrigues Pereira, um dos integrantes do grupo, as iniciativas retomam a tradição da São Francisco de criar redes de apoio e sociabilidade, como a Casa do Estudante, moradia mantida pelo centro acadêmico.
“Temos uma tradição muito grande de comunidade”, diz o diretor. “O que estamos fazendo é transformar o franciscanismo em coisas concretas.”