História, Sociedade e Cultura

Leonardo Santana da Silva – historiador e músico.

 

Cultura para quê?

Apesar de vivermos um período em que os boatos são mais rápidos do que as próprias notícias oficiais – vide a “era das Fake News” – ao andar por uma das várias conhecidas ruas do centro do Rio de Janeiro, apenas uma semana depois do anúncio oficial, foi que tomei conhecimento de fato sobre a triste notícia de que a Livraria Cultura havia fechado suas portas.

Ao deparar-me com certa movimentação, ainda que entre meia porta, não me contive. Fui em direção até uma das moças que ali se encontrava, para perguntar se era verdade mesmo aquilo que estava presenciando. Não deu outra. A informação se confirmou bem ali mesmo, na calçada em frente ao local que um dia abrigou o tão famoso Teatro Eva Herz e o Cine Vitória – na Rua Senador Dantas, 45.

Sob a justificativa de um cenário econômico de incertezas, uma das ex-funcionárias da Livraria me informou que o encerramento das atividades da Cultura fora decretado oficialmente desde o último dia 10 de outubro. Essa filial carioca da Cultura foi inaugurada em 2012. Depois de ter ficado fechado por 20 anos, a Cultura ocupou durante 6 anos aquele belíssimo espaço em Art Decó, com 4 andares e 3,2 mil metros quadrados de área e muita história.

Esses episódios, lamentavelmente tem sido recorrente na cidade carioca já há algumas décadas. O Rio já teve bem mais livrarias – consideradas verdadeiros templos do saber. Apenas para citarmos dois ou três exemplos, e não mais do que isso, o primeiro que nos vem rapidamente a memória é o da Livraria Padrão.

Fundada em 1973 pelo livreiro mais antigo e em atividade que conheceríamos, a Livraria Padrão endereçava-se na Rua Miguel Couto, 40. Ultrapassando o período de bodas de diamante – 78 anos de profissão e 94 anos de idade – Alberto Abreu iniciou sua carreira em 1938, na extinta Livraria Acadêmica, na Rua São José. Sr. Abreu, no ano de 2010, ganhou merecidamente o prêmio Amigo do Livro, na categoria Livreiro Veterano, oferecido pela Associação Estadual de Livrarias do RJ.

O sacerdócio de Alberto Abreu lhe rendeu homenagens da Academia Brasileira de Letras e do governo francês. Até as vésperas de completar seus 90 anos, trabalhou diariamente, sem qualquer chance de aposentadoria. Quem quisesse ser atendido pessoalmente por essa figura, era só dá uma chegadinha, entre 9hs e 18hs, que ele estava sempre por lá, manuseando um livro para variar. Inesperadamente, a Livraria Padrão, no ano de 2005, também fecharia suas portas para tristeza dos amantes dos livros e daquela Livraria.

Em seus tempos áureos, dotadas de frequentadores ilustres – Drummond, Manuel Bandeira, Cecília Meireles, João Goulart, entre outras personalidades – a Livraria São José, no centro do Rio, foi considerada, na década de 80, o maior sebo da América do Sul. Infelizmente ela também fechou suas portas no dia 31 de março de 2014.

A Leonardo da Vinci escapou por pouco dessa onda – ufa! Localizada na avenida Rio Branco, 185, foi fundada em 1952 pelo romeno Andrei Duchiade. Nos últimos anos foi administrada por sua esposa dona Vanna e por sua filha Milena Duchiade. Com mais de 60 anos de tradição, o empresário Daniel Louzada assumiu o empreendimento, salvando assim a Da Vinci a tempo.

A Praça Floriano, popularmente conhecida como Cinelândia, foi um dos lugares que concentrou importantes cinemas de rua – Cine Odeon, Cine Pathé e o próprio Cine Vitória. Estes e outros cinemas – com exceção do Odeon que funciona esporadicamente – acabaram tendo o mesmo desfecho de tais livrarias. Por que será? O acaso do destino? Vão me desculpar: não acredito! Descaso, falta de investimentos e desinteresse pela cultura, sejam talvez justificativas mais plausíveis.

Numa sociedade em que livrarias e cinemas são fechados; museus pegam fogo e bibliotecas públicas, ora são fechadas, ora incorrem no risco de pegarem fogo também, vos pergunto: cultura para quê? Um Estado que maciçamente promove uma autopropaganda, cujos números altamente duvidosos representariam um baixo índice de analfabetismo, diminuição de reprovação, evasão escolar e aumento da ocupação das carteiras do ensino superior, o que nos resta a fazer? Concordar com o fato de ser normal transferirmos para outros as consequências de nossos atos irresponsáveis? Coisas da natureza humana?  A meu ver, impessoalidade de caráter! Nesse caso, o que nos sobra mesmo é a reflexão sobre uma simples tríade indagação: cultura porquê, cultura para quem, cultura para quê ???