A toda velocidade

Cédula de real, moeda brasileira. (Foto: Gabriel Cabral/Folhapress)

Está claro — e bastante batido pela imprensa — a narrativa dos juros baixos nas economias maduras e mais recentemente no Brasil. A Selic na casa de 2% vai forçar movimentos nunca vistos. Na superfície destes movimentos, vemos a bolsa voltar a patamares pré-crise, a despeito da Covid e das incertezas no curto prazo relativas ao mercado. A confiança de empresários e gerentes em geral ainda não voltou, apesar dos 100 mil pontos da B3.
Os últimos acontecimentos de compras e ofertas agressivas de empresas listadas demonstra a busca pelo controle do fluxo — e estão menos pautados na clássica arbitragem de múltiplos de valor entre empresas listadas e não listadas. Quem pode está tentando controlar o fluxo de qualquer forma.
No lado das empresas não listadas, continuamos a perceber a dificuldade dos agentes financeiros mais tradicionais de ponderar a liberação de crédito com sobrepeso na análise clássica de balanço patrimonial, subestimando a análise do modelo de negócios e a capacidade do time gestor.
Ainda que reconheçamos a beleza e a dificuldade de se emprestar às Pequenas e Médias Empresas (PME) com base em critérios mais abrangentes, entendemos que o modelo mais tradicional de liberar dinheiro ainda vai preponderar e deixará órfã boa parte do mercado por algum tempo. Sairão na frente os fundos e agentes que tiverem a competência e método para escalar uma nova forma de análise. Talvez a combinação de operadores de empresa experientes aliados à análise de crédito seja a solução no médio prazo.
O Fundo de Investimento em Direitos Creditórios, o chamado FDIDC, está se multiplicando para o benefício da economia real. E ainda existe muito espaço para crescer no mal explorado nicho de PME e de empresas em situações pontuais de estresse, sem falar na área de Fundos de Situações Especiais (Special Situations no jargão inglês).
A briga pelo processo de originação vai acontecer nos anos vindouros, e veremos as taxas de juros cair substancialmente aos tomadores de crédito. Bom para as empresas, uma vez que elas terão mais chance de sucesso, lucratividade, longevidade e de acesso a juros que caibam no seu orçamento.
Apesar da queda da Selic, as taxas de crédito disponíveis à PME estão na casa de sete vezes a Selic para uma vasta gama de empresas no Brasil. Há que desconsiderar os movimentos recentes de produtos com subsídio de governo que ficam em torno de 10%. Mas a demanda aqui é infinita, e o capital finito. O lucro bruto das empresas PME situa-se, em média, em torno de 10 a 15% ao ano – isso sem considerar necessidades de giro e investimento que afetam o caixa líquido no fim do dia.
Aos sobreviventes da Covid haverá uma onda de consolidação de empresas e oportunidades de crescimento. Veremos empresas, agentes econômicos e plataformas de tecnologia se amalgamarem de forma cada vez mais intrincada nos próximos anos. A velocidade com que as peças estão se mexendo no tabuleiro da economia brasileira é surpreendente.

Marco França é engenheiro pela PUC, tem MBA em Finanças (COPPEAD) e é sócio da Auddas